Parasitas são organismos que vivem associados a  outros, de quem retiram os  nutrientes que necessitam para sobreviver. Alguns  parasitas  vivem dentro do organismo hospedeiro, são os endoparasitas, como por exemplo, alguns vermes intestinais, bactérias, fungos e protozoários. E  outros  vivem sobre o corpo do hospedeiro, são os ectoparasitas, como por exemplo, os piolhos, carrapatos, sanguessugas e as pulgas.

Pulgas em geral, são ectoparasitas de diversos animais e no passado foram as responsáveis pela transmissão da mais mortal das epidemias, a Peste Negra, que dizimou quase um terço da população da Europa no século XIV.

Mas há várias espécies de pulgas e neste post vamos descrever e conhecer uma espécie  em particular, a Tunga penetrans, causadora da tungíase,  uma parasitose conhecida popularmente no Brasil como bicho-de-pé (ou bicho-de-porco). Em espanhol, a parasitose recebe o nome de nigua; em inglês chigger, sand-flea ou chigoe flea; em alemão Sandfloh e em francês chigue.

Segundo pesquisadores, o parasita parece ser originário das Índias Ocidentais e de lá, através dos navegadores se espalhou pelo mundo. Atualmente pode ser encontrado em 88 países, especialmente na África, América Central e do Sul, Paquistão e Índia.

O bicho-de-pé já é mencionado nos relatos mais antigos sobre o Brasil e seus primeiros habitantes. Era conhecido pelos índios que o chamavam de tunga.  Hans Staden, o aventureiro alemão que foi prisioneiro dos Tupinambás em meados do século XVI, escreveu: “há ali pequenos insetos, parecidos com pulgas, mas um pouco menores e que chamam de tunga na língua dos selvagens. Surgem nas cabanas devido à sujeira das pessoas e grudam nos pés. Apenas coçam quando penetram na carne,  e comem a carne sem que se possa realmente senti-los. Quando não se presta atenção e não são logo extraídos, formam um nicho arredondado como uma ervilha. Quando se percebe e logo se tira o animalzinho, fica um pequeno buraco na carne, do tamanho de uma ervilha. Quando cheguei a essa terra com os espanhóis, não tardou muito para eu ver como os insetos deixaram em horrível estado os pés de alguns de nossos camaradas que não lhes deram atenção“. (Staden, H. Duas Viagens ao Brasil. Porto Alegre:L&PM,2009.p.175)

Essa descrição,  feita há mais de 450 anos atrás, é muito realista. Quem já viu alguém com bicho-de-pé certamente identifica cada trecho da narrativa.

O  “inseto, parecido com pulga” ao qual H. Staden se refere é de fato uma pulga, porém muito menor do que aquelas que parasitam cães e gatos, por exemplo. A Tunga penetrans  mede apenas um milímetro de comprimento e seu nome científico, dado em 1838, aproveitou o termo indígena pelo qual era conhecido.

Tunga penetrans sobre a pele do hospedeiro. Ampliação aproximada: 50 x. Imagem em Sciencephotolibrary

Tunga penetrans sobre a pele do hospedeiro. Ampliação aproximada: 50 x. Imagem em Sciencephotolibrary

Para H. Staden e as pessoas de sua época, as pulgas surgiam por geração espontânea, a partir da sujeira, no entanto, o fato real é que elas se originam de ovos que parecem ser capazes de permanecer longo tempo no meio ambiente, especialmente em solos arenosos e pouco iluminados. No Brasil, essas pulgas podem ser encontradas em todo território nacional, especialmente em comunidades carentes e sem acesso a moradias adequadas, podendo em algumas regiões, segundo pesquisas recentes, atingir quase 50% da população.

Cães, gatos, ratos, ovelhas, burros, elefantes, macacos e outros mamíferos podem ser parasitados e  são focos de disseminação do parasita.

A pulga pula somente cerca de 20 cm, por isso a infestação geralmente se restringe aos pés ou pernas, mas pode acontecer em qualquer parte da pele.

O ciclo de vida dos animais é bastante complexo, pois como muitos outros insetos, as pulgas passam por metamorfose completa antes de chegar à vida adulta.

Ciclo de vida da Tunga penetrans (fora de escala, cores artificiais)

Ciclo de vida da Tunga penetrans, causadora do bicho-de-pé (fora de escala, cores artificiais)

1- Ovo – que mede entre 600-320 micrômetros

2- Larvas – saem dos ovos de 1 a 6 dias depois da postura e ficam parcialmente enterradas no solo arenoso

3 – Pupa – se forma 5 a 11 dias após a eclosão da larva. O casulo é protegido por grãos de areia. O processo de metamorfose da pupa se completa em 9 a 15 dias.

4 – Adultos – a fêmea não fertilizada suga sangue do hospedeiro e em seguida começa a escavar a pele. Acomodada na cavidade, ela fica com a parte posterior do abdômen volta para a superfície da pele  e é fertilizada por uma pulga macho.

5- Tem início o processo de hipertrofia do abdômen que chega ao tamanho de uma ervilha. Geralmente três dias depois da penetração, surge um halo branco ao redor de um ponto negro. No momento do maior crescimento abdominal, a pulga, que era a menor do mundo, agora tem um diâmetro de 5 a 10 mm, o que corresponde a um aumento de volume de 2000 a 3000 vezes. Esse abdômen tão aumentado abriga entre 100 e 200 ovos estão maduros e prontos para ser dispersos. Cerca de 3 semanas após penetrar a pele, a fêmea morre.

Ovos de Tunga penetrans muito ampliados ( foto em www.healthinplainenglish.com)

Ovos de Tunga penetrans muito ampliados ( foto em http://www.healthinplainenglish.com)

Aspecto do local parasitado (foto em www.healthinplainenglish.com)

Aspecto do local parasitado (foto em http://www.healthinplainenglish.com)

Por diversos motivos o bicho-de-pé (tungíase) é uma parasitose negligenciada. Geralmente a presença do parasita não é entendida como algo grave ou como uma doença. Muitas pessoas dizem sentir uma “coceirinha agradável” no início do processo, porém poucos dias depois o local começa a doer muito. Se nada for feito, e quando há a presença de muitos parasitas, as cavidades escavadas pelas fêmeas podem ser  a porta de entrada para infecções graves que em alguns casos chegam a exigir a amputação do dedo, pé, ou perna e que sem assistência médica podem levar à morte.

Não há tratamento para a parasitose, a forma usual de eliminar o parasita é a retirada da cápsula com o auxílio de agulha esterilizada.

Professor: O bicho-de-pé é um ectoparasita importante em nosso país e a causa de graves problemas de saúde que podem inclusive levar à morte. É preciso conscientizar os alunos de que o bicho-de-pé é uma doença. Questione os alunos sobre os conhecimentos que possuem sobre o tema. Permita que eles contem suas experiências a respeito. Estimule os alunos a propor formas de diminuir a  incidência do bicho-de-pé na população brasileira. Para orientar a discussão saiba que os pesquisadores têm poucas sugestões a dar,  as principais são: evitar caminhar descalço ou de chinelos em áreas propícias ao desenvolvimento das pulgas; morar em residências com piso cimentado; manter animais de criação em áreas com piso cimentado e distantes da casa; manter casa e arredores sempre limpos.