O maior e o menor

Quando estudamos os mamíferos aprendemos que eles possuem muitas características em comum:

  • possuem pelos em alguma fase da vida;
  • têm temperatura corporal constante;
  • possuem glândulas e os filhotes se alimentam do leite produzido pela mãe.

Mas, ainda que todos tenham essas características, o grupo é muito diversificado e engloba animais de todos os tamanhos e que vivem nos mais diversos ambientes.

Pensando somente nos maiores e menores  também vamos encontrar uma variedade muito grande.

Maiores

Provavelmente, a maioria das pessoas dirá que o maior mamífero é o elefante. E ele realmente é muito grande, mas é o maior mamífero terrestre.
Nos oceanos existem animais muito maiores: as baleias são muito grandes e dentre elas a maior de todas é a baleia-azul (Balaenoptera musculus).
Aliás, as baleias azuis não são somente o maior animal vivente, mas são provavelmente o maior animal que já viveu no planeta.
Observe a ilustração abaixo onde vemos a comparação do tamanho da baleia azul com o tamanho de outros animais e até de um avião Boing 737-500.
Ambos, o Boing e a baleia azul medem cerca de 30 metros de comprimento.
Se pensarmos em uma pessoa de um metro e meio, teremos que uma baleia azul pode medir o tamanho de 20 pessoas deitadas em sequência uma depois da outra.

imagem em: http://www.unexplained-mysteries.com/forum/index.php?showtopic=262834&st=60

Esse animal imenso tem peso estimado entre 100 e 200 toneladas.
O coração da baleia azul tem o tamanho de uma vaca.

baleia 1
Modelo de coração de baleia azul em tamanho real.

Modelo de coração de baleia azul em tamanho real.

imagens em

https://www.st.nmfs.noaa.gov/feature-news/big-hearted-blue-whale e http://genius.com/2403213

Estima-se que atualmente existam somente entre 5000 e 12000 baleias azuis nadando pelos oceanos do mundo.
Por isso, a espécie é considerada em perigo de extinção (Endangered species – EN) e está incluída na lista vermelha de animais com probabilidade de serem extintos. As baleias azuis foram caçadas de modo absurdo. Em 1966 a caça à baleia azul foi proibida, mas nessa ocasião, 330.000 indivíduos já haviam sido caçados só na Antártida.

Além da caça desenfreada, o risco de extinção se mantém porque cada fêmea dá à luz a um único filhote à cada 3 anos aproximadamente.Então, a reposição da população perdida é muito lenta.
O período de gestação é de 10-12 meses e o filhote nasce com 7 metros de comprimento e pesa 2,5 toneladas. As baleias azuis são mamíferos e portanto, alimentam seus filhotes com o leite. Para alimentar um “bebê” tão grande são necessários de 380 a 570 litros de leite por dia.
Durante seis meses ele é amamentado. Depois desse período e já com o dobro do tamanho, o filhote se alimenta por conta própria.
As baleias azuis se alimentam de pequeninos crustáceos que se parecem com camarões e são conhecidos como krill. Elas podem comer mais de 3,5 toneladas de krill por dia.
A baleia coloca grandes quantidades de água na boca e “espreme” essa água com a língua, passando-a por placas que fazem a filtração da água. a água sai, o krill fica e é engolido.

Krill

Krill  –

imagem em http://www.katu.com/news/outdoors/Millions-of-krill-wash-up-on-Oregon-Calif-beaches-213695671.html

O Menor

Se o maior mamífero pesa milhares de toneladas, o menor deles pesa entre 1,5 e 2 gramas e  mede entre 29 e 33 milímetros (pouco mais de três centímetros).
Esse animal é um morcego que vive em cavernas na Tailândia e em Myanmar. Conhecido como morcego-zangão ou morcego-nariz-de-porco-de-Kitti (Craseonycteris thonglongyai) ele não é maior do que uma abelha grande. Os primeiros indivíduos foram descobertos nos anos 1970.

morcego

imagem em: http://joythay.blogspot.com.br/2013/12/il-kitti-hog-nosed-bat.html

Eles vivem em grupos de até cem indivíduos e têm hábitos noturnos. À noite saem das cavernas para caçar insetos.
As fêmeas dão a luz a um filhote por ano e assim como as gigantescas baleias azuis, o pequenino morcego zangão faz parte da lista vermelha das espécies ameaçadas de extinção. A principal ameaça é a destruição  das matas próximas às cavernas onde eles vivem.

Aquele tubarão é manso ?

Por estranho que possa parecer, ouvimos esta pergunta de alguém que realmente ficou com essa impressão. Mas porque alguém perguntaria se um tubarão é manso?

A resposta está no incrível convívio pacífico entre tubarões e seres humanos observado nas águas que banham o arquipélago de Fernando de Noronha.

O arquipélago é formado por uma ilha maior e várias ilhotas menores,  distantes cerca de 360 km da costa do Rio Grande do Norte, no entanto, o arquipélago pertence ao estado de Pernambuco. As ilhas são a parte visível de uma cadeia submarina de montanhas formadas por intensa atividade vulcânica há milhões de anos.

Lugar maravilhoso, de natureza bastante preservada, as ilhas e o mar que as cercam revelam muitas surpresas e nos mostram como pouco sabemos sobre a interação entre as diferentes espécies que convivem em determinado ambiente.

Caminhando pela praia da baía de Sueste fomos surpreendidos com a presença de tubarões. Mas não uma barbatana avistada lá longe no mar, não. Os tubarões estavam literalmente junto de nossos pés. Trazidos pelas ondas da arrebentação. Nadavam em meio à areia em busca de alimento. Mas também não eram tubarões adultos e sim filhotes de tubarão limão que se aproximam da arrebentação em busca de alimento.

Os filhotes de tubarão limão se desenvolvem dentro do corpo da fêmea e quando nascem já estão completamente formados.

Tubarão limão (Negaprion brevirostris)

Tubarão limão (Negaprion brevirostris)

Tubarão limão próximo aos banhistas

Tubarão limão próximo aos banhistas

Os filhotes de  tubarão-limão têm o hábito de permanecer durante bastante tempo nas regiões em que nasceram (áreas conhecidas como berçários). Por isso, sua presença nas praias de Fernando de Noronha.

Quando adultos chegam a 3 metros de comprimento e nadam em águas profundas onde se alimentam de crustáceos e animais bentônicos, isto é, animais que vivem sobre o leito do oceano.

 

Foi a visão de um animal adulto, nadando relativamente perto de um turista que levou à pergunta: aquele tubarão é manso?

 

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Tubarão adulto perto da praia do Leão em Fernando de Noronha.

Um animal selvagem nunca é manso, como a maioria dos tubarões, o limão possui numerosos dentes arrumados em fileiras nas arcadas superior e inferior e poderia causar ferimentos graves aos seres humanos. No entanto, isso não acontece porque  os tubarões-limão preferem outros alimentos que  as águas ao redor do arquipélago oferecem  em abundância, por isso, os animais não nos atacam.

Distribuição geográfica do tubarão limão.

Imagem em http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/

 

Dentes de tubarão.

Dentes de tubarão.

Fernando de Noronha está há mais de 500 km da costa de Pernambuco e é lá, especialmente em Recife, que têm acontecido o maior número de ataques de tubarão registrados no Brasil. O último deles, aconteceu em 2013 e foi fatal. Em vinte anos, foram 57 acontecimentos desse tipo, com 22 mortes. Para evitar tragédias como essas a orla da praia de Boa Viagem em Recife tem muitos avisos alertando para o perigo.

Em Recife, os ataques provavelmente são produzidos por tubarões-touro (duas espécies do gênero Carcharias) e por tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier ), ambos muito comuns naquelas águas e com comportamento agressivo. Podem atacar os seres humanos ao confundi-los com outras presas. O tubarão-tigre em particular, é pouquíssimo seletivo, come praticamente qualquer coisa que flutue e com seus quase 6 metros de comprimento pode matar facilmente.

O número de ataques em Recife aumentou muito e os pesquisadores atribuem isso a mudanças no meio ambiente costeiro causadas pela construção e movimento de navios no porto de Suape.

Para construir o porto, estuários foram dragados e  docas  foram construídas, projetando-se para o oceano. Isso parece ter sido um problema para os tubarões touro, que têm grande parte do seu ciclo de vida dependente de estuários costeiros. Acredita-se que as ações sobre o ambiente necessárias à construção de Suape interferiram nos hábitos de caça destes animais.

Já os tubarões tigre são migratórios e costumam seguir os navios em busca de alimento (lixo lançado às águas). Os navios que chegam  ao porto podem ser a causa do aumento na população destes animais.

As pesquisas continuam a ser feitas e ainda não há resultados absolutamente conclusivos sobre a causa do aumento de ataques em Recife.

Praia da Boa Viagem - Recife

Praia da Boa Viagem – Recife

Aviso espalhado por toda orla da Boa Viagem.

Aviso espalhado por toda orla da Boa Viagem.

 

 

 

 

 

 

 

Professor: Ainda que haja controvérsia sobre o motivo pelo qual os ataques em Recife se tornaram tão numerosos, é importante destacar o quanto desconhecemos as múltiplas interações entre os seres vivos e o ambiente. E como nossa ação pode resultar em consequências nunca imaginadas anteriormente.

Cidadela revelada

Os insetos constituem um grupo de artrópodes muito numeroso e diverso, caracterizado entre outros detalhes, por apresentar três pares de patas. Estima-se que cerca de metade do seres vivos já identificados sejam insetos.

Além da diversidade de formas, os insetos também apresentam grande variedade de comportamentos, destacando-se  a capacidade de  algumas espécies viverem em sociedade.

São exemplos de insetos sociais: as abelhas, os cupins e as formigas.

Em uma sociedade os animais dividem tarefas, de modo que o trabalho individual é somado para garantir a sobrevivência do grupo.

As tarefas são feitas por diferentes grupos (castas) a quem competem atividades bem delimitadas. Assim, há soldados, operários, rainhas e machos reprodutores.

Soldados defendem os ninhos. Operários fazem todas as atividades de manutenção da colonia (vamos usar a definição de colonia encontrada em diversos dicionários: conjunto de indivíduos da mesma espécie vivendo em um determinado local), como, construção e limpeza do ninho, obtenção de alimento e cuidados com os ovos e larvas. Machos reprodutores  e rainhas têm a função de gerar novos descendentes.

Entre as abelhas, há três castas: operárias, zangões e rainhas.

Zangão - rainha - operária

Zangão – rainha – operária

ilustração em http://www.state.nj.us/dep/parksandforests/forest/bees.html

As castas de cupins são formadas por operários, soldados, rainhas e indivíduos  alados. Rainhas e indivíduos alados  saem dos  ninhos e fazem vôos nupciais. Retornando ao solo, esses indivíduos formam novas colonias. Durante anos, a rainha  faz a postura dos ovos que irão dar origem a todos os indivíduos da colonia. Para isso, o abdômen da rainha  cresce desproporcionalmente e ela já não consegue se movimentar e precisa ser cuidada pelos operários, que a limpam e alimentam.

Indivíduo jovem alado - rainha adulta - soldado - ninfa (forma jovem imatura) - sodado

Indivíduo jovem alado – rainha adulta – soldado – ninfa (forma jovem imatura) – sodado

Ilustração em http://www.ctahr.hawaii.edu/termite/forthepublic/abouttermites/index.html

Entre as formigas, encontramos machos alados, rainhas, operários e soldados.

rainha - macho - operário - soldado

rainha – macho – operário – soldado

Ilustração em http://academic.reed.edu/biology/courses/BIO342/2011_syllabus/2011_websites/NAEwebsite/Phylogeny.html

Em todos esses grupos de insetos sociais, há espécies que constroem complexas moradias para a colonia.

Colmeias de abelhas com seus favos hexagonais feitos de cera, são bastante conhecidos.

Os favos hexagonais armazenam o mel e abrigam as larvas em processo de crescimento.

Nos favos hexagonais as abelhas armazenam mel e mantêm abrigadas as larvas em processo de crescimento.

Imagem em http://beespotter.mste.illinois.edu/topics/honey/

Os cupins constroem cupinzeiros que, em alguns casos, são imensos e além da parte subterrânea, se estendem vários metros acima da superfície do solo.

Cupinzeiro - com uma complexa estrutura subterrânea e acima da superfície.

Cupinzeiro – com uma complexa estrutura subterrânea e acima da superfície.

ilustração em http://systems11thurs.wiki.usfca.edu/MoayedJ

Cupinzeiro no Quênia.

Cupinzeiro no Quênia.

Imagem em http://www.swri.org/

Cupinzeiro em Darwin, Austrália.

Cupinzeiro em Darwin, Austrália.

Imagem em www.opl.ucsb.edu

Mas e as formigas? Todos conhecemos formigueiros e não raramente descobrimos a localização de um deles da pior forma: pisando ou sentando em cima. Mas como são os formigueiros por dentro? Qual a complexidade destas estruturas? Constituídos por galerias escavadas na terra, é muito difícil observar o interior de um formigueiro. Serão tão complexos quanto as colmeias e os cupinzeiros?

Para responder a estas e outras perguntas pesquisadores têm usado uma  técnica (muito invasiva, é verdade) que permite visualizar um formigueiro por dentro.

No endereço: http://www.youtube.com/watch?v=ozkBd2p2piU há um filme de poucos minutos onde podemos conhecer o interior de um formigueiro e avaliar sua estrutura. O filme é em inglês, assim, para facilitar a compreensão vou transcrever livremente a narrativa.

O filme inicia com a colocação de dez toneladas de cimento injetadas para o interior do formigueiro. Depois de algum tempo tem inicio a escavação que dura várias semanas e revela a megalópolis construída pelas formigas. Com a ajuda de máquinas, os cientistas removem toneladas de terra. Há vias subterrâneas conectando todo o complexo, inclusive os jardins onde são criados os fungos. A estrutura permite uma ventilação adequada e possibilita o deslocamento dentro do formigueiro. O desenho desse colosso  poderia  ter sido concebido por um arquiteto, no entanto, todo o complexo  foi construído pelo trabalho coletivo de milhões de formigas, que em conjunto, formam aquilo que costuma ser chamado de superorganismo.  A estrutura tem 50 metros quadrados e oito metros de profundidade. Para construí-la, a colonia movimentou 40 toneladas de solo. O esforço para esses minúsculos animais construírem algo tão grande é equivalente, em termos humanos,  à construção da muralha da China.

Professor: aproveite para discutir a divisão de tarefas nas diversas sociedades de artrópodes e questione o porquê  dessa associação ser favorável aos animais. Sugira a ampliação da discussão do tema por meio de pesquisas sobre as abelhas e os cupins.  Aponte a importância ecológica destes animais, como por exemplo:

1- abelhas: polinização;

2- cupins: reciclagem de matéria orgânica, especialmente da celulose, composto muito abundante, mas de dificílima digestão;

3- formigas: algumas espécies mantêm interações que favorecem a germinação e a multiplicação de plantas que aparentemente são “atacadas” por elas. As formigas auxiliam a manter o ambiente limpo, ao consumir insetos e outros animais mortos. Algumas espécies comem ovos de outros insetos, auxiliando a manter essas populações sob controle. Formigas são alimento de diversas espécies de aves e de mamíferos como o tamanduá. Ao cavar o solo, ajudam a arejá-lo e movimentam suas camadas, deslocando partículas para a superfície.

“Progresso” a qualquer custo?

Em 22 de outubro, foi notícia mundial a situação  vivida pela população da cidade de Harbin, na China. Naquele dia, a poluição atmosférica na região chegou a um valor 40 vezes superior ao que a Organização Mundial de Saúde (OMS) admite.

Para a OMS, a presença de 25 partículas finas por metro cúbico no ar é o máximo tolerável. Na segunda feira 21 de outubro, segundo a agência ambiental chinesa, a cidade registrou 1000 partículas finas por metro cúbico.

Como resultado, a paisagem local mudou, a visibilidade chegou a menos de 50 metros.

Cidade de Harbin envolta na poluição.

Cidade de Harbin envolta na poluição. Foto Reuters.

A cidade tem cerca de 11 milhões de habitantes e são deles os relatos mais vívidos do problema:

Dói respirar, você não vê muitas pessoas nas ruas. Alguns colocam três máscaras no rosto antes de sair.”

Todos os alunos chegaram atrasados à aula porque não conseguimos achar o prédio da universidade.

Quando acordei abri a janela de casa e fiquei chocada: não se via nada.”

Poluição Harbin - China 1

foto AFP

E qual a causa do problema?

Segundo noticiários locais a situação ambiental se agravou por causa da entrada em funcionamento das usinas termoelétricas, fonte de energia para a os sistemas de calefação que fazem o aquecimento dos prédios durante os meses mais frios do ano.

Essas termoelétricas são movidas a carvão e geram grandes volumes de poluentes que são lançados na atmosfera. O carvão é considerado uma fonte “suja” de energia, porque sua queima emite o grande volume de dióxido de carbono (CO2), além de outros compostos, alguns deles responsáveis pela chuva ácida.

Mas não foram somente as termoelétricas que causaram o fenômeno. Associados aos poluentes gerados pelas usinas,  há também aqueles produzidos pelas fábricas e os poluentes emitidos pelos escapamentos de milhões de veículos. Juntos, esses fatores transformaram a cidade de Harbin em uma cidade fantasma, ou fantasmagórica.

Poluição Harbin - China 3  foto Xinhua

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                                                                                                     foto AFP/Getty Images

Um dos diretores do  departamento de proteção ambiental, resume o  que acontece na região: “no momento, as emissões poluentes totais superaram a capacidade ambiental“. O meio ambiente tem condições de dissipar componentes que poluem a atmosfera, mas  acima de certo limite, a dispersão dos poluentes fica comprometida. É o  que acontece em Harbin.

Para tentar diminuir o imenso problema, as autoridades estabeleceram algumas ações emergenciais: a interdição de obras, a paralisação de indústrias, a proibição da realização de fogueiras e churrascos ao ar livre,  a suspensão das aulas  e a restrição à circulação de veículos.

Mas o que são poluentes atmosféricos e quais suas consequências?

Segundo o CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente): considera-se poluente qualquer substância presente no ar que, pela sua concentração, possa torná-lo impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde, causando inconveniente ao bem-estar público, danos aos materiais, à fauna e à flora, ou seja prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade (Resolução n° 03/90).

Os poluentes atmosféricos podem ser  gases ou  partículas. Alguns são naturais, como os gases e cinzas vulcânicas, outros são artificiais porque gerados pela ação humana, como por exemplo  os resíduos gerados pela queima de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, querosene) ou de lenha e álcool entre outros.

A poluição atmosférica  pode ter repercussões sobre os seres vivos que habitam a região.

Os animais em geral  sofrem problemas respiratórios.

Os seres humanos, me particular, podem apresentar dor de garganta, tosse, falta de ar, alergias, asma,bronquite,  tontura, dor de cabeça.  As plantas podem ter sua capacidade de realizar fotossíntese comprometida.

Apesar da situação em Harbin, neste momento ser crítica, a adoção de ações e políticas que busquem preservar o meio ambiente pode amenizar o quadro atual. No passado, outras cidades já sofreram com a poluição e conseguiram reverter o problema. Para isso é necessária a conscientização e ação de todos em busca de um objetivo comum: a conservação do meio ambiente.

Pittsburgh, USA, século XIX. A ilustração retrata a grande poluição causada pelo uso do carvão nas indústrias que se multiplicavam.

Pittsburgh, USA, século XIX. A ilustração retrata a grande poluição causada pelo uso do carvão nas indústrias que se multiplicavam.

Professor: discuta com os alunos o “progresso a qualquer preço”. Destaque que situações como essa devem ser prevenidas, porque os processos para revertê-la são demorados, caros e não evitam os prejuízos e os males acumulados ao longo do tempo. Sobre a emissão de dióxido de carbono, no endereço http://edgar.jrc.ec.europa.eu/overview.php?v=CO2ts1990-2011&sort=des9 há uma tabela que lista os países e sua produção de CO2 nos anos de 1990 a 2011. A China é o maior produtor mundial desse gás, seguida pelos Estados Unidos, Índia e Rússia. Procure mostrar que todos nós temos parcela de contribuição a dar na preservação do meio ambiente. No caso da poluição atmosférica, podemos colaborar ao usar menos os carros e ao evitar a realização de queimadas, por exemplo.

Uma planta sensível

Nativa do Brasil, a Mimosa pudica é uma pequena planta rasteira frequentemente  encontrada entre gramíneas, em campos abertos e pastos. Suas folhas são subdivididas em folíolos.

Mimosa pudica, com folhas divididas em folíolos.

Mimosa pudica, com folhas divididas em folíolos.

Na base de cada folíolo há uma estrutura denominada pulvínulo, que é a responsável pela característica mais surpreendente da Mimosa pudica:  sua capacidade de reagir a estímulos mecânicos fechando rapidamente suas folhas.

Folíolos totalmente abertos

Folíolos totalmente abertos

Folíolos iniciando o fechamento.

Folíolos iniciando o fechamento.

Três folhas com folíolos totalmente fechados.

Três folhas com folíolos totalmente fechados.

Todas as folhas fechadas.  As quatro fotografias foram feitas no intervalo entre 16 h 22 m 48 s e 16 h 23 m 16 s.

Todas as folhas fechadas.
As quatro fotografias foram feitas no intervalo entre              16 h 22 m 48 s e 16 h 23 m 16 s.

No século XV, o naturalista inglês Robert Hooke (1635-1703), famoso por suas pesquisas utilizando o microscópio, observou a reação destas plantas e, não sabendo como explicá-lo sugeriu que elas tivessem músculos e nervos semelhantes aos encontrados nos animais.

No entanto, pesquisas posteriores realizadas no século XIX, revelaram que os movimentos da Mimosa pudica se devem à entrada e saída de água de determinadas células existentes no na base dos pecíolos das folhas e folíolos (região denominada pulvínulo).

Na base dos folíolos, os púlvinulos são formados por células que perdem água rapidamente

Na base dos folíolos, os pulvínulos são formados por células que perdem água rapidamente.

Com o estímulo mecânico, algumas células perdem água rapidamente, tornando-se flácidas e sem capacidade de manter a sustentação da folha ou do folíolo. Passados alguns minutos (15 a 20), essas células retornam à sua condição normal e as folhas voltam à  posição anterior ao estímulo.

Com o estímulo, as células da base do pecíolo perdem água que é absorvida pelas células da camada superior. Com isso, os folíolos fecham. O processo todo é muito rápido.

Com o estímulo, as células da base do pecíolo perdem água que é absorvida pelas células da camada superior. Com isso, os folíolos fecham. O processo todo é muito rápido.

No endereço: http://www.youtube.com/watch?v=TcyOk3VkSiY disponibilizei um pequeno vídeo que mostra uma planta reagindo a um estímulo mecânico.

Os pesquisadores acreditam que esse mecanismo seja uma maneira de defesa da planta que assim, derruba de suas folhas predadores pequenos e desencoraja herbívoros maiores quando estes, subitamente veem seu alimento  desaparecer.

Professor: estimule a curiosidade dos alunos perguntando se plantas se movem. Depois destaque que elas fazem muitos movimentos: crescem; abrem e fecham flores; se movimentam em direção à luz e não raramente fazem o que se convencionou chamar de rastreamento solar (exemplos: o feijão e o girassol); plantas carnívoras se fecham ao redor de suas presas. Enfim, as plantas se movem mais do que geralmente percebemos, pois alguns desses movimentos são muito lentos. No entanto, todos eles podem ser observados se houver curiosidade e atenção.

 

“Esculturas” no lago da morte

Um estranho fenômeno foi observado no lago Natron, na Tanzânia.

Imagem mapa em http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6292434.stm

O lago tem características únicas, suas águas muito quentes chegam a 60 graus e são extremamente alcalinas, com pH entre 9 e 10,5, que é mais alto do que o pH da amônia, por exemplo.

O nome do lago, Natron, está relacionado a um composto muito abundante em suas águas, o natrão, uma substância natural formada por carbonato de sódio decahidratado hidratado ( Na2CO3. 10 H2O), bicarbonato de sódio (NaHCO3) e pequenas quantidades de cloreto de sódio (NaCl) e sulfato de sódio (Na2SO4) . O natrão era usado pelos antigos egípcios  no processo de mumificação, pois ele provoca a desidratação dos corpos e cria um meio em que as  bactérias decompositoras não conseguem atuar.

Por todas essas características, pouquíssimos seres vivos conseguem sobreviver ali: há cianobactérias, algas, pequenos invertebrados,  tilápias (Alcolapia alcalica) e mais de 2,5 milhões de flamingos da espécie Phoenicopterus minor que ali encontram alimento abundante e ausência de predadores.

Imagem  foto em http://en.wikipedia.org/wiki/Lesser_Flamingo

O lago Natron é o principal local de nidificação dos flamingos desta espécie. O lago lhes oferece alimento, mas  também água doce e matéria prima para a construção dos ninhos. Cada ninho é um cone de argila sobre o qual é feita a postura dos ovos.

Imagem foto em http://www.fredhoogervorst.com/photo/00158/

A presença destes seres vivos em ambiente tão hostil é surpreendente. As pesquisas para identificar os mecanismos adaptativos que permitem sua sobrevivência, ainda não encontraram todas as respostas às perguntas que os pesquisadores fazem.

Recentemente, o fotógrafo Nick Brandt, transformou em fotos artísticas um fenômeno extraordinário observado naquelas águas. Ao longo da costa do lago, ele encontrou corpos  de pássaros e morcegos que haviam sido preservados e pareciam delicadas esculturas de pedra. O fotógrafo retirou os corpos da água e colocou-os em posições próximas aquelas que eles fariam quando vivos. O resultado foram fotos surpreendentes.

Imagem foto Nick Brandt em http://www.newscientist.com/article/mg21929360.100-deadly-lake-turns-animals-into-statues.html#.UkypONKsjK4

Não há uma explicação sobre o motivo da morte dos animais e nem sobre os complexos processos químicos que levam à esta forma de preservação  dos corpos.

Professor: o tema pode ser abordado para ilustrar os conteúdos relacionados a pH ou aos tipos de ambientes extremos e sobre o fato de que alguns organismos conseguem sobreviver em condições tão adversas.

Baratas, esses estranhos animais.

A maioria das pessoas, quando ouve falar em baratas,  tem reações que  vão do medo à repulsa.

Definitivamente,  baratas não são animais populares. E há muitos motivos para isso.

Tirando as reações emocionais que podem ter muitas explicações, ou nenhuma, as baratas causam tanto desagrado por inúmeros motivos:

– são veículo de doenças, pois  contaminam alimentos e utensílios de cozinha com bactérias como  Salmonella sp. e  Escherichia coli,  causadoras de doenças gastrointestinais  que podem produzir ser muito graves;

– nas grandes infestações, produzem odores desagradáveis e suas secreções mancham tecidos e  papéis;

– produzem alérgenos (substâncias capazes de causar alergia) que podem desencadear crises respiratórias principalmente em crianças e idosos.

Existem cerca de 5000 espécies de baratas já identificadas em todo mundo. Em comum,  o fato de terem o corpo oval e achatado, com longas antenas e a cabeça quase escondida.  Como todo inseto possuem seis patas que, em se tratando das baratas, possuem espinhos.

barata
Desenho esquemático de uma barata

Desenho esquemático de uma barata  – desenho em http://etc.usf.edu/clipart/47900/47969_cockroach_m.htm

 

A maioria das baratas possui asas, no entanto, elas voam pouco e quando o fazem percorrem somente curtas distâncias. Os animais jovens são parecidos com os adultos mas não possuem asas.

As baratas são insetos de metamorfose incompleta e seu ciclo de vida compreende somente as fases:  ovo -> ninfa  -> adulto.

ciclo vida barata 2
Ninfas de Blatta orientalis saindo da ooteca, imagem em http://animal-affairs.photoshelter.com/image/I0000iOHvBU_r6xI

Ninfas de Blatta orientalis saindo da ooteca, imagem em http://animal-affairs.photoshelter.com/image/I0000iOHvBU_r6xI

Os ovos são postos dentro de estruturas semelhantes a pequenas caixas (ootecas) de formato retangular, no interior das quais, dependendo da espécie, há de 16 a 50 ovos. Uma fêmea coloca uma ooteca a cada 5-9 dias, produzindo, ao longo de sua vida, cerca de 90 ootecas. Em um ano, uma fêmea e seus descendentes podem gerar mais de  10.000 indivíduos.

Em um período que varia de 34 a 88 dias, cada  ninfa que sai da ooteca  sofre até 12 mudas  e se transforma no animal adulto, em um processo de amadurecimento que dura entre 4 e 5 meses.

As baratas são animais de hábitos noturnos. De noite saem de seus esconderijos e vão em busca de alimento. Mas o que elas comem?

Praticamente tudo, algumas espécies silvestres se alimentam de restos em decomposição, enquanto as baratas que convivem com os seres humanos, como Blatella germanica, são onívoras e roem quase tudo.

A grande fecundidade e os hábitos alimentares pouco exigentes são a causa de um grave problema de saúde pública identificado em algumas aldeias indígenas do país. Durante o dia, as baratas se escondem nos telhados de palha das ocas e em em frestas escuras e úmidas. À noite, milhares de baratas saem de seus esconderijos e vão em busca de alimento e assim, com frequência,  roem a pele das pessoas provocando ferimentos dolorosos.

As crianças são mais sensíveis porque têm sono mais profundo. Imagem em http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

As crianças são mais sensíveis porque têm sono mais profundo. Imagem em http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

As baratas tornam o alimento impróprio para o consumo humano. Imagem em: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

As baratas tornam o alimento impróprio para o consumo humano. Imagem em: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

No endereço http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo, há mais informações sobre o problema gerado pelas baratas nas aldeias indígenas.

 Professor: Estimule os alunos a falar sobre as baratas. O tema é importante para destacar a importância dos cuidados com conservação e estocagem dos alimentos e a necessidade de manter a casa limpa. É interessante destacar que baratas são alimento de outros predadores, como por exemplo, os escorpiões, portanto, a presença de baratas pode atrair para as imediações das casas animais muito perigosos. A reportagem de Ciência Hoje destaca a tentativa dos pesquisadores em produzir um repelente natural, mas, como os resultados foram pouco satisfatórios, a solução encontrada pelos indígenas em uma das aldeias, foi colocar fogo nas ocas. Reforce a necessidade de controlar a presença desses animais e organize uma lista com atitudes que todos podemos tomar para evitar a proliferação das baratas.

Calor que derrete

No início de setembro (2013) a mídia noticiou o fato de um carro ter “derretido” por causa do calor direcionado por um prédio espelhado.

Notícia tão incomum causou espanto e quem leu sobre ela, provavelmente, se perguntou de que modo um acontecimento como esse seria possível.

Antes de buscar uma explicação para esse fenômeno ocorrido no século XXI, vamos lembrar um outro fato que, segundo contam alguns, teria se passado há mais de 2200 anos.  No século II de nossa era, o escritor Luciano de Samósata (125-180) narrou que entre 214 e 212 a.C, durante o cerco realizado pelos romanos à cidade grega de Siracusa, Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C) teria destruído os navios inimigos com fogo. Séculos depois, o matemático grego, Anthemius de Tralles (474-558), escreveu que os navios teriam queimado pelo uso de um aparelho que ele denominou de “raio de  calor de Arquimedes”. Esse aparelho, segundo alguns poderia ter sido formado por placas de bronze ou cobre polido que atuariam como um espelho, concentrando os raios solares sobre os navios e provocando seu incêndio.

Segundo narrativa do século II, Arquimedes teria usado espelhos para incendiar as velas de navios inimigos que se aproximavam de Siracusa.

Segundo narrativa do século II, Arquimedes teria usado espelhos para incendiar as velas de navios inimigos que se aproximavam de Siracusa. (ilustração em http://www.energy-without-carbon.org/SolarThermalCST)

A existência desse aparelho vem sendo questionada desde o Renascimento e as  tentativas de recriá-lo não tiveram êxito. Nenhum equipamento foi capaz de incendiar um navio como aqueles usados pelos romanos. Por isso, acredita-se que essa narrativa seja uma lenda. Segundo pesquisadores, no máximo, o intenso feixe luminoso dirigido sobre os navios poderia ter desorientado a tripulação.

Mas, qual a relação do suposto aparelho de Arquimedes com o carro derretido pelo edifício?

O edifício em questão tem um formato curvilíneo, e é recoberto por grande número de placas de vidro  que agem como se fossem espelhos.  Os reflexos produzidos por elas convergem para um determinado ponto, o foco.

Os raios luminosos são refletidos pelo espelho e convergem para um mesmo ponto, o foco.

Os raios luminosos são refletidos pelo espelho e convergem para um mesmo ponto, o foco (F).

Esse feixe concentrado de luz em uma pequena área provoca  aquecimento local. Não esqueça que o espectro luminoso é formado pela luz visível e por outras radiações não visíveis, entre elas, a radiação infravermelha que pode ser sentida na forma de calor.

É bem fácil perceber esse fato quando usamos lentes convergentes como as de uma lupa, por exemplo. A radiação atravessa a lente e se concentra em um ponto, o foco. Ali, aluz é mais intensa e a temperatura é mais alta.

Lente convergente
Ao atravessar a lente a radiação se concentra sobre um ponto.

Ao atravessar a lente a radiação se concentra sobre um ponto.

A radiação concentrada aumenta a temperatura no local, podendo inclusive provocar a combustão de materiais como papel ou folhas secas.

A radiação concentrada aumenta a temperatura no local, podendo inclusive provocar a combustão de materiais como papel ou folhas secas.

O carro mencionado no noticiário, estava estacionado exatamente no ponto correspondente ao foco da radiação refletida pelos vidros.  Um termômetro colocado no local apontou que a temperatura chegou a mais de 91 graus Celsius, e foi capaz de amolecer os plásticos que faziam parte da estrutura do carro.

Partes plásticas do carro amoleceram com o calor produzido pelo reflexo do edifício.

Partes plásticas do carro amoleceram com o calor produzido pelo reflexo do edifício. Imagem em http://www.lbc.co.uk

O espelho retrovisor mudou de forma e ficou queimado.

O espelho retrovisor mudou de forma e ficou queimado.

 

Professor: Noticiários costumam ser importante fonte de informações que podem ser aproveitadas para contextualizar os conteúdos desenvolvidos em sala de aula. Ao aproveitarmos os “ganchos” que eles nos oferecem conseguimos aproximar os assuntos abordados em sala da realidade cotidiana. O uso de lentes de aumento (lupas) para queimar folhas secas ou papel é bem simples, mas é experimento que deve ser feito com a supervisão de adultos. É importante orientar para que os alunos desviem os olhos do (foco) ponto mais brilhante evitando a possibilidade de alguma lesão nos olhos. É fundamental também um trabalho de conscientização para o risco de incêndios. Vale reforçar o ditado popular que afirma que “com fogo não se brinca”!!

 

“Aquele que faz dormir”

Os indígenas da amazônia, conhecedores das características de certo peixe encontrado nos rios da região, deram a ele o nome de poraquê, termo cujo significado aproximado é: “aquele que faz dormir” ou “aquele que entorpece”. Posteriormente, esses  peixes  receberam o nome científico de Electrophorus electricus.

Mas qual será a característica que levou os povos da amazônia a dar tal nome ao peixe?

O poraquê é  capaz de gerar potentes descargas elétricas que podem atordoar outros animais, inclusive os seres humanos e eventualmente causar-lhes a morte.

Essa característica também é a origem do nome científico do animal.

Os poraquês chegam a medir dois metros de comprimento e podem apresentar cerca 30 kg de massa. Seu corpo de  formato  cilíndrico-alongado  não é recoberto por escamas e por  isso, o animal também é conhecido em algumas regiões do mundo como enguia elétrica (electric  eel).

Poraquê

Poraquê (Electrophorus electricus)

Além da bacia amazônica, eles também ocorrem na bacia do Orinoco  e podem ser  encontrados no Brasil, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Os poraquês preferem águas calmas e fundos lodosos onde encontram alimento: pequenos peixes e mamíferos que são  capturados com auxílio das descargas elétricas emitidas por seus corpos. Essa eletricidade também é usada para afugentar predadores.

O poraquê é o mais potente dos peixes elétricos, mas não o único, outras espécies também são capazes de emitir descargas elétricas como por exemplo:  os peixes-gato (catfish) elétricos (Malapterurus electricus) e os pequenos  peixes-elefante (Gnathonemus petersii), que medem no máximo 35 cm de comprimento. Assim como o poraquê, esses peixes são de água doce.

Peixe-gato elétrico Malapterurus electricus

Peixe-gato elétrico (Malapterurus electricus) que habita o continente africano e pode medir mais de um metro e vinte centímetros de comprimento.

Peixe elefante - Gnathonemus petersii

Peixe elefante – Gnathonemus petersii

Nos oceanos, os peixes elétricos mais conhecidos são os representantes do gênero Astroscopus (sp), que vivem sobre o leito arenoso do fundo, e as arraias (ou raias)  torpedo (Torpedo marmorata), que, em busca de alimento, costumam se mover junto ao fundo.

Raia (ou arraia)  torpedo - Torpedo marmorata

Raia (ou arraia) torpedo – Torpedo marmorata

Mas, de que modo esses animais são capazes de produzir a eletricidade que se propaga na água ao redor de seus corpos? E como eles mesmos não sentem essa descarga elétrica?

A eletricidade é produzida em órgãos especiais, os órgãos elétricos,  formados por um conjunto de células musculares modificadas, as eletroplacas, que se organizam em série, como as pilhas em uma lanterna. Quando estimuladas, sob comando do sistema nervoso central, cada uma das eletroplacas produz uma descarga elétrica.

Localização dos órgãos elétricos em alguns dos peixes citados no texto. A seta indica o sentido da corrente. (fonte http://www.ghoselab.cmrr.umn.edu/Classes/3102/Aidley-The%20Electric%20Organs%20of%20Fishes.pdf)

Localização dos órgãos elétricos em alguns dos peixes citados no texto. A seta indica o sentido da corrente. (desenhos em: http://www.ghoselab.cmrr.umn.edu/Classes/3102/Aidley-The%20Electric%20Organs%20of%20Fishes.pdf)

O poraquê chega a ter 6000 eletroplacas e quando todas as descargas individuais se somam,  produzem uma corrente elétrica que chega a 600 volts (V). Para efeitos de comparação lembre que a corrente elétrica que chega a nossas casas tem  tensão de 220 V ou 110 V. Então, o choque produzido pelo poraquê pode ser entre 3 e  6 vezes mais potente do que aquele sentido quando  acidentalmente recebemos uma descarga de 220 ou 110 V. Os outros peixes elétricos produzem descargas mais fracas.

Mas os peixes elétricos não são afetados pela descarga elétrica que produzem porque as eletroplacas estão isoladas das outras células ao redor delas e a  pele os protege da eletricidade que flui na água ao redor de seus corpos.

Os exemplos citados podem ser usados para ampliar os conhecimentos dos alunos sobre a grande diversidade de estratégias de predação e defesa encontradas entre os seres vivos. Para o ensino médio é interessante fazer a correlação entre a eletricidade gerada por esses peixes e o fato dos impulsos nervosos serem de natureza elétrica.

Chupim: aquele que vive às custas de outrem

Essa é uma das definições que o minidicionário Houaiss dá para a palavra chupim quando usada em expressões como: “tal pessoa é  oportunista, parece um chupim”.

Mas essa não é a única definição para a palavra. Chupim também é um dos nomes populares de uma ave de penas escuras, cujo nome científico é Molothrus bonariensis e que pode ser encontrada em quase toda América do Sul.

Molothrus bonariensis, conhecido entre vários outros nomes, como chupim, xeréu, vira-bosta

Molothrus bonariensis, conhecido entre vários outros nomes, como chupim, xeréu ou vira-bosta

Os chupins machos parecem negros, mas quando a luz incide sobre suas penas, é possível observar  uma coloração azul metálica. As fêmeas são mais amarronzadas.

Chupim fêmea.

Chupim fêmea.

Essas aves se alimentam de insetos, aranhas e grãos. Costumam ser vistas em bandos, buscando alimento nos gramados (especialmente após o corte da grama).  Seus ovos são brancos ou cinza claro e podem ter manchas acastanhadas.

Mas, qual a relação entre a ave da descrição e imagens acima e  o uso pejorativo que se faz de seu nome popular?

O chupim é considerado um animal oportunista porque não constrói ninhos e a fêmea não choca seus ovos. Esses animais mantêm com diversas outras espécies de aves uma interação denominada esclavagismo. Isto é, os chupins se aproveitam do trabalho das outras aves para o desenvolvimento de seus filhotes.

A fêmea coloca seus ovos em ninhos de outras aves para que ali eles sejam chocados. Parece que a fêmea coloca apenas um ovo em cada ninho, no entanto, pesquisadores já encontraram até cinco ovos de chupim em um mesmo ninho (cada um deles colocado por uma fêmea).

Uma das aves mais visadas pelos chupins, são os tico-ticos, no entanto, muitas outras espécies podem ser  “vítimas” da ave oportunista,  entre elas, as corruíras (Troglodytes sp).

As corruíras são muito menores do que os chupins, comem grande variedade de insetos e aranhas, além de conchas de caracol que servem provavelmente para fornecer cálcio e areia para ajudar a digestão. Em solo, se movem  por meio de saltos rápidos.

Corruíra - Trglodites sp. Foto em wikimedia commons - Dario Sanches

Corruíra – Troglodites sp.
Foto em wikimedia commons – Dario Sanches

Os ninhos são construídos com amontoados de galhos escondidos em cavidades as mais variadas: fendas nas árvores, antigos ninhos de pica-paus e outras, existentes em materiais produzidos pelos seres humanos, como caixas, latas e em objetos diversos descartados no ambiente. Os ninhos são forrados com grama, penas, pelos e uma grande variedade de materiais como cordas, fios, barbantes, plásticos…

A fêmea do chupim coloca um ovo nesse ninho e a fêmea da corruíra (ou outra espécie que tenha tido seu ninho invadido) choca esse ovo, junto com os seus próprios ovos.

Geralmente o filhote do chupim nasce antes dos demais e recebe toda atenção e cuidados da fêmea. Não raramente, ele empurra os outros filhotes para fora do ninho, eliminando a concorrência e, incrivelmente, depois de bem grandinho,  ainda exige muita atenção da “mãe adotiva”.

Pudemos flagrar um breve momento dessa relação. O vídeo está disponível em  http://youtu.be/6qadJP9Pwsk. Nele,  o chupim filhote, faz todo um gestual com as asas e o corpo  e produz bastante barulho (o áudio do vídeo não ficou bom). Então, surge a pequena fêmea que alimenta o grandão. Em seguida, a fêmea voa e o filhotão esfomeado segue atrás. São poucos segundos, mas revelam bastante dessa estranha interação. Durante vários dias ouvíamos o pio exigente do chupim e víamos a pequena corruíra tentando atendê-lo.

Aguarda a "mãe-adotiva" para alimentá-lo.

Filhote de chupim aguarda a “mãe-adotiva” (corruíra) para alimentá-lo.

Aqui o bichinho já está agitado exigindo comida.

Aqui o bichinho já está agitado exigindo comida.

Uma pergunta que podemos  fazer é: porque essas aves (tico-ticos, corruíras, sanhaços e outras) aceitam esses ovos “invasores” em seus ninhos?

Uma resposta foi tentada  pelos índios guaranis:  segundo a tradição indígena, os gaviões e falcões lutavam com outras aves, entre elas os urubus, para decidir quem teria a supremacia dos céus. Vencida a batalha, houve muito vandalismo e  depredações, quando a casa do chupim foi queimada. A ave, ainda que muito chamuscada,  escapou da morte, mas sua plumagem ficou negra. Os chupins, com medo de novos incêndios, nunca mais fizeram ninhos (dessa maneira, os índios explicavam a cor das aves e o fato de não construírem ninhos). (Frisch, J.D & Frisch, C. D.  Aves brasileiras e plantas que as atraem. São Paulo: Dalgas Ecoltec. 3a.ed.p. 346).

Para os pesquisadores a resposta é menos poética. Estudos recentes indicam que se o ovo do chupim é retirado do ninho, esses ninhos correm grande risco de ser destruídos pelos chupins, parece que a  depredação narrada na lenda guarani é, de fato, uma ação dos chupins. Assim, manter ovo no ninho, com todo desgaste que isso traz para a ave que irá cuidar dele, parece ser uma estratégia para evitar um mal maior.

Professor: sugerimos o vídeo para exemplificar a interação ecológica conhecida como esclavagismo. O vídeo pode ensejar discussões das mais diversas naturezas e talvez possa ser trabalhado com professores de outras áreas, levantando questões como ética, oportunismo. A explicação dada pelos indígenas também é um rico material para reforçar a importância da observação e das tradições populares. Os três endereços eletrônicos abaixo são fonte de informações sobre as aves em geral (os dois últimos são em inglês).

http://www.wikiaves.com.br/

http://avibase.bsc-eoc.org/avibase.jsp

http://www.birds.cornell.edu/Page.aspx?pid=1478

Cantar até estourar?

Não é raro ouvirmos  pessoas afirmarem que as cigarras estouram (ou explodem) de tanto cantar. A informação parece estranha, mas, mesmo assim, muitos acreditam nela. Então, podemos nos perguntar:  porque as pessoas fariam tal afirmativa ou acreditariam nela?

Frequentemente, observações do mundo natural geram curiosidade e em consequência, tentativas de explicação. Em muitas regiões do país podemos encontrar, aderidas às árvores, estruturas como a que vemos abaixo:

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Observe-a atentamente. Perceba que nas costas do que parece ser um inseto há uma fenda, o que dá a impressão de que o animal  rompeu (rasgou). Terá estourado?

Para entender melhor o que acontece sugerimos o filme que se encontra disponível em http://www.youtube.com/watch?v=tjLiWy2nT7U. Produzido pela BBC de Londres a narrativa é em inglês. Para facilitar a compreensão, fizemos um  pequeno roteiro explicativo com informações adicionais que podem enriquecer a explicação do fenômeno visualizado no filme.

                                                          O surpreendente ciclo de vida das cigarras

O narrador (Sir David Attenborough) inicia contando que certas espécies de cigarras que vivem no leste dos Estados Unidos permanecem 17 anos embaixo da terra, alimentando-se da seiva que extraem das raízes das árvores do local. Após esse período,  em poucos dias, toda uma população de cigarras (na forma de ninfas) sai da terra (aos 0:11 segundos do filme).  São bilhões de indivíduos (estima-se que hajam cerca de 370 ninfas por metro quadrado, em uma grande área que mede quase 100.000 quilômetros quadrados). As ninfas sobem pelos troncos das árvores (aos 0:40 segundos do filme) e se transformam nos animais adultos (aos 1:02 minutos do filme). Para isso, o esqueleto externo (exoesqueleto)  se rompe na região das costas e do interior dele sai o  adulto jovem, cujas asas se expandem rapidamente (o filme  está acelerado, mas em tempo real o processo também é rápido). Em pouco tempo os troncos das árvores e o chão estão cobertos de exoesqueletos vazios. O processo de troca do exoesqueleto recebe o nome de ecdise. Alguns dias depois, com o exoesqueleto já completamente endurecido, os machos produzem um canto intenso, quase ensurdecedor, que pode chegar a mais de 100 decibels. O som é característico para as diferentes espécies e é produzido por um par de  membranas vibratórias  existentes na base do abdômen (aos 2:28 minutos).  O canto dos machos tem por objetivo atrair as fêmeas, que  respondem com pequenos sons semelhantes a estalos (aos 2:46 minutos). Os machos vão em busca desse som. Aos 2:48 minutos, Sir David Attenborough mostra que o som produzido pelas fêmeas é semelhante a um estalo de dedos e para comprovar isso, estala os dedos perto de um macho que passa a se mover em busca da fonte do ruído, até chegar ao apresentador e finalmente a seus dedos. Quando macho e fêmea se encontram, ocorre o acasalamento (aos 4:15 minutos). Finalmente, o narrador explica que pouco se sabe sobre os mecanismos que levam as cigarras a sair simultaneamente do solo após terem se passado 17 anos de sua existência subterrânea.

Entre a imagem acima e a foto abaixo, há muita diferença no aspecto do inseto. Isso se deve ao fato de que as asas e o esqueleto ainda precisam endurecem para que o animal finalmente chegue ao estágio adulto.

Cigarra adulta -

Cigarra adulta de uma espécie encontrada no Brasil.

Depois do acasalamento, as fêmeas fazem de 50 a 60 fendas  na casca de galhos tenros e ali realizam a postura de seus ovos. Cada fêmea, em sua curta existência de animal adulto, coloca cerca de 600 ovos. Em algumas semanas, as pequenas ninfas eclodem e buscam refúgio sob  o solo (algumas se enterram quase 30 cm), onde ao longo de 17 anos  (se forem da espécie americana vista no filme), se alimentam de seiva das plantas e sofrem mudas, até atingir o último estágio de  ninfa e sair para a superfície, dando início a outra “invasão barulhenta”.

O ciclo de vida das cigarras pode ser resumido em: ovo –> ninfa –> adulto, por isso, dizemos que esses insetos sofrem metamorfose incompleta, isto é, são hemimetábolos.

Ciclo de vida das cigarras - ilustração de Treasure Bay & Judith Hunt.

Ciclo de vida das cigarras – ilustração de Treasure Bay & Judith Hunt.

Ainda que o mecanismo de eclosão simultânea seja pouco conhecido (parece ter bases genéticas, sendo desencadeado pela ação de um determinado gene), os pesquisadores acreditam que o aparecimento dessa imensa quantidade de animais ao mesmo tempo seja uma estratégia de sobrevivência, pois assim,  a maioria dos insetos sobrevive à predação. Os principais predadores das cigarras são aves e certas espécies de vespas.  Essas vespas têm grande porte (chegam a 5 cm) e são conhecidas como cicada killer wasps (vespas assassinas de cigarras). A vespa paralisa a cigarra com o veneno inoculado por seu ferrão, e carrega-a  para sua toca. Lá deposita um ovo sobre ela. Um ou dois dias depois, a larva eclode e começa a se alimentar da cigarra.

As cigarras que vivem em território brasileiro não cumprem um ciclo de vida tão longo, elas geralmente completam seu desenvolvimento entre 1 ou 2 anos e não saem simultaneamente de seus abrigos sob a terra. Algumas espécies causam prejuízos à lavoura, especialmente de café. As ninfas escavam as raízes com suas fortes patas anteriores (observe na fotografia que mostra o exoesqueleto vazio), causando danos às plantas.

O incrível ciclo de vida das cigarras tem sido uma fonte de fascínio desde tempos antigos, por exemplo, os chineses consideravam  que estes insetos eram  poderosos símbolos de renascimento.

Professor: aproveite para valorizar o conhecimento popular como algo que geralmente é a tentativa de explicar fenômenos observados na natureza. Apesar de  a explicação popular frequentemente não corresponder à explicação dada pelos pesquisadores, nem por isso, ela deixa de ter valor como patrimônio cultural. Questione se os alunos conhecem outras crenças relacionadas ás cigarras, por exemplo, frequentemente as pessoas vêem em seu canto um indício de chuva.

Poucos insetos fazem metamorfose incompleta e o exemplo das cigarras (com seu incrível ciclo de vida) pode tornar o tema mais atraente. Além disso, ele pode ser usado para reforçar a necessidade das mudas ou ecdises. Questione os alunos se eles já encontraram essas “casquinhas” de cigarras aderidas às árvores e o que imaginaram que fosse. Estimule-os a observar atentamente as fotografias e o filme, que pode (e deve) ser pausado diversas vezes para destacar os principais acontecimentos  da vida das cigarras ali apresentados.

Surpresas nos rios

Em junho, o portal G1 noticiou a admiração causada  por um peixe de água doce conhecido há muito tempo ( foi descrito na primeira metade do século XIX), mas pouco visto, o  abotoado ou cuiú-cuiú (fam. Doradidae), um tipo de bagre que tem o corpo coberto  por  dezenas de placas ósseas com espinhos. Por apresentarem esse revestimento incomum e sem escamas, peixes deste tipo são conhecidos como peixes-de-couro. O animal da fotografia foi capturado no rio Macacoari, em Macapá (AP).

peixe_de_couro

foto em http://g1.globo.com/ap/amapa/noticia/2013/06/peixe-de-couro-chama-atencao-de-turistas-em-macapa.html

Os cuiú-cuiús vivem em águas profundas das bacias dos rios Paraná, Araguaia e  Amazonas e  se escondem em “tocas” cavadas nas barrancas dos rios e entre a vegetação das matas inundadas. Com seus barbilhões rastreiam a areia e o lodo do leito dos rios em busca de alimento. Esses peixes são onívoros e podem se alimentar de moluscos, camarões de água doce, peixes menores, larvas, frutos, sementes e detritos. Os animais têm coloração escura que lembra cor de barro. Podem  medir até 70 cm e apresentar massa de 6 a 7 kg. Apesar de pouco conhecido dos turistas e visitantes ocasionais, o cuiú-cuiú é antigo conhecido dos indígenas e das populações ribeirinhas, que o usam como alimento. Em uma demonstração da profunda interligação entre os diversos organismos presentes nos diferentes ecossistemas, pesquisa publicada em 2007, revela que a pesca excessiva do cuiú-cuiú pode ter tido consequências até então não imaginadas.

Vamos conhecer essa história.

Em 2005,  centenas de moradores de Araguatins, cidade às margens do rio Araguaia, no estado de  Tocantins, apresentaram um estranho surto de irritação e coceira nos olhos, seguida de lesões na conjuntiva (uma das membranas que formam o olho) que, em alguns casos, produziu cegueira ou perda parcial da visão em pelo menos um dos olhos afetados pelo problema. A situação ficou tão séria que diversos pesquisadores foram contatados para encontrar uma explicação para o que estava acontecendo. Depois de várias hipóteses que não se confirmaram, duas pesquisadoras parecem ter encontrado a resposta e parte dela já era conhecida dos indígenas que habitavam a região há séculos. Pesquisas recentes, sobre a fauna do Araguaia  revelaram que  em suas águas vive uma grande variedade de esponjas  (classe Demospongiae), que os indígenas denominavam de “cauxi” ou “caixi”. As esponjas são animais sésseis, isto é, vivem fixos a um substrato, e são filtradores,  retirando da água o oxigênio e os nutrientes necessários a sua sobrevivência.  Para dar sustentação ao corpo, elas possuem estruturas microscópicas denominadas espículas. As esponjas de água doce possuem espículas minerais, compostas por dióxido de sílica. Quando os animais morrem, sofrem decomposição e as espículas se dispersam na água.

Espículas microscópicas (parecem pequenas agulhas)

Espículas microscópicas (parecem pequenas agulhas)

foto em http://www.gc.maricopa.edu/biology/lsola/Bio182/labreview/porifera/Spicules.jpg

Os indígenas, antigos habitantes da região,  reconheciam o perigo de  águas que tivessem cauxi e evitavam banhar-se nelas ou bebê-las. Relato de 1934, dá conta que eles ensinavam que as águas com cauxi “queimam”. Texto de 1955, reforçava que a população evitava tomar banho nesses lugares, bem como usar essas  águas. Eles temiam os espinhos pontiagudos do cauxi, que ficavam em suspensão na água e aderiam ao corpo causando coceiras desagradáveis.

Conhecedoras destas tradições, ao procurar esclarecer o surto que atingiu Araguatins, as pesquisadoras se voltaram para as águas do Araguaia. Coletaram amostras dessa água para examinar suas características e procurar espículas. Conversaram com os moradores para entender os hábitos locais. Descobriram que havia dez espécies de esponjas vivendo naquele trecho do rio e que nessas águas e no sedimento do fundo, havia  espículas. As entrevistas revelaram que as pessoas afetadas pela estranha doença ocular tinham o hábito de mergulhar e nadar junto ao leito do rio com os olhos abertos. Estudos posteriores analisaram os nódulos que se formavam no olho e em três casos, dentro deles,  foram encontradas espículas de duas espécies de esponjas: Drulia uruguayensis e Drulia ctenosclera.

Espículas de Drulia sp.

Espículas de Drulia sp.

 Drulia ctenosclera

Drulia ctenosclera

Drulia uruguayensis

Drulia uruguayensis

fotos de Drulia em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81752007000300013

As espículas aderem ao olho e provocam a formação de nódulos como os observados nas imagens.

Nódulo na conjuntiva

Nódulo na conjuntiva

olhos com lesões por espículas - 2 Fotos em: http://www.nature.com/eye/journal/v27/n3/fig_tab/eye2012290f1.html

Mas se essa foi a causa do surto, restava uma questão: porque o número de esponjas e, consequentemente, de suas espículas parecia ter aumentado? Diversas hipóteses foram levantadas para tentar explicar o desequilíbrio que deu origem a essa situação:

a) a constante remoção de areia  do rio por dragas, faria as espículas depositadas no fundo ficarem em suspensão na água;

b) a crescente população de um tipo de moluscos gastrópodes que reviram o fundo lodoso do rio em busca de alimento também contribuiria para manter as espículas em suspensão na água. Esses moluscos teriam proliferado excessivamente pela falta de seus predadores naturais: os peixes cuiú-cuiú que, pescados em grande número, são cada vez mais raros na região;

c) a correnteza do rio que se desloca junto à margem onde se situa a cidade e ajuda a revolver o fundo;

d) o aumento de material orgânico nas águas do rio causado pela falta de saneamento básico. A maior oferta de alimento teria favorecido a multiplicação de bactérias que são a principal fonte de  alimento dessas esponjas.

O mais provável é que todas essas situações, associadas ao hábito de muitos moradores da região mergulharem de olhos abertos, expliquem o surto registrado na cidade de Araguatins em 2005.

Professor: O texto anterior pode ser usado para reforçar a grande biodiversidade de nosso planeta e em especial de nossos rios. Pode também ser usado quando procuramos mostrar a profunda interligação que os diferentes organismos mantêm entre si e com o ambiente. Estimule os alunos a sugerir alternativas para que outros surtos como esse não afetem as populações ribeirinhas de nosso país. Reforce a importância da orientação para prevenção e do saneamento básico.

O estudo sobre o surto de doença ocular em Araguatins pode ser lido integralmente em  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81752007000100016  (acesso em 04  de julho de 2013).  E há um resumo em  inglês em http://www.nature.com/eye/journal/v27/n3/full/eye2012290a.html  (acesso em 04 de julho de 2013).

O mundo em cores

Vivemos em um mundo multicolorido e podemos ver tantas nuances de cor porque  nossos olhos possuem  cerca de 6 a 7 milhões de células especiais, denominadas cones,  que reagem aos estímulos luminosos e têm sensibilidade para diferenciar os vários comprimentos de onda que correspondem às diferentes cores. A percepção de luminosidade (claro e escuro) é feita por células denominadas bastonetes.

Entre os  animais, a capacidade de ver cores é bastante variada e se relaciona à presença ou ausência dos cones ou ao seu funcionamento. Os seres humanos possuem três tipos de cones, cada um deles sensíveis a comprimentos de onda longos (L), médios (M) e curtos (S). O funcionamento inadequado dessas células gera  problemas na visão em cores, como por exemplo, o daltonismo (discromatopsia), onde há dificuldade em distinguir algumas cores. Pessoas com daltonismo têm dificuldade em identificar as cores de um semáforo (farol) de trânsito, por isso, deveria haver um padrão na disposição das luzes, de modo que essas pessoas pudessem identificar a cor somente pela mudança na luminosidade quando a lâmpada acendesse.

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Muitos dos animais que convivem conosco têm uma visão em cores bem mais limitada do que a nossa. Cães,  vêm principalmente tons de cinza e alguns tons de amarelo e azul. Os gatos e felinos em geral, vêem com menos cores ainda, no entanto, esses animais têm visão noturna muito eficiente.

see_girl-dog-1     see-girl-dog2   Na foto da ecolorblindsquerda a cena  como vista pelo olho humano, na direita, a mesma cena como seria vista pelos cães. (fonte: http://www.colormatters.com/color-matters-for-kids/how-animals-see-color).

color_vision 01    color_vision 02   Na foto da esquerda, a imagem como seria vista pelo olho humano, na direita, a imagem como seria vista pelos gatos.

Mas, qual a origem de tantas cores?

A luz branca, como a do Sol, é formada pela combinação das diversas cores que compõem o espectro visível ao olho humano.

espectro visivel

Quando decomposta, a luz branca revela sua verdadeira constituição: a associação de vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil (ou índigo) e violeta.

Podemos ver essas cores nos arco-íris, que se formam quando as gotas de água em suspensão no ar, produzem a dispersão  dos raios de luz do Sol e decompõe a luz branca.

arco-iris

O fenômeno da dispersão da luz branca, também pode ser observado em um CD. Quando um feixe de luz branca incide sobre as  ranhuras muito estreitas do CD, essa luz se dispersa, revelando as cores que a compõe. Experimente e teste diferentes fontes de luz.

CDCD1CD2

E como vemos as diferentes cores?

Quando a luz branca incide sobre um corpo azul, por exemplo, o corpo absorve todas as outras cores do espectro visível e reflete somente o azul. Um corpo de cor branca é aquele que reflete todas as cores, sem absorver nenhuma.

As cores  que não se decompõe em outras,  são denominadas cores primárias, são elas: o amarelo puro, o azul ciano e o vermelho magenta ( um vermelho mais próximo do  lilás).

cores primárias

Quando as cores se sobrepõem, formam toda a gama multicolorida que conhecemos.

Por exemplo:  o vermelho que usamos no dia a dia é uma mistura do vermelho magenta com o amarelo. Observe na ilustração acima que o vermelho se encontra entre o amarelo e o magenta, na região onde as duas cores se misturam.

Podemos realizar uma experimentação bem simples, mas bastante curiosa que demonstra esse fato. Para isso serão necessários:

– papel branco

– lápis de cor amarelo

– pedaço de plástico transparente vermelho

Com o lápis de cor, desenhe um pássaro amarelo no papel (não o contorne de preto). Coloque sobre seu desenho o plástico vermelho transparente. Observe. Procure explicar o observado.

Pássaro amarelo

Professor:

A experimentação é bem simples, mas a explicação requer que os alunos tenham compreendido os conceitos que explicam as  diferentes cores e como somos capazes de identificá-las. O desenho amarelo foi feito em papel branco, isto é, o papel branco reflete todas as cores, menos o amarelo do desenho.  Quando cobrimos o papel e o desenho com o plástico vermelho (feito com pigmento vermelho magenta e amarelo), o plástico filtra a luz branca (que tem todas as cores em sua composição) e deixa passar a cor  vermelha. Mas o plástico também tem amarelo em sua composição, então,  esse amarelo também é refletido, porém,  nossos olhos não têm sensibilidade suficiente para distingui-lo do vermelho e por isso o desenho parece ter sumido.

 

A menor pulga

Parasitas são organismos que vivem associados a  outros, de quem retiram os  nutrientes que necessitam para sobreviver. Alguns  parasitas  vivem dentro do organismo hospedeiro, são os endoparasitas, como por exemplo, alguns vermes intestinais, bactérias, fungos e protozoários. E  outros  vivem sobre o corpo do hospedeiro, são os ectoparasitas, como por exemplo, os piolhos, carrapatos, sanguessugas e as pulgas.

Pulgas em geral, são ectoparasitas de diversos animais e no passado foram as responsáveis pela transmissão da mais mortal das epidemias, a Peste Negra, que dizimou quase um terço da população da Europa no século XIV.

Mas há várias espécies de pulgas e neste post vamos descrever e conhecer uma espécie  em particular, a Tunga penetrans, causadora da tungíase,  uma parasitose conhecida popularmente no Brasil como bicho-de-pé (ou bicho-de-porco). Em espanhol, a parasitose recebe o nome de nigua; em inglês chigger, sand-flea ou chigoe flea; em alemão Sandfloh e em francês chigue.

Segundo pesquisadores, o parasita parece ser originário das Índias Ocidentais e de lá, através dos navegadores se espalhou pelo mundo. Atualmente pode ser encontrado em 88 países, especialmente na África, América Central e do Sul, Paquistão e Índia.

O bicho-de-pé já é mencionado nos relatos mais antigos sobre o Brasil e seus primeiros habitantes. Era conhecido pelos índios que o chamavam de tunga.  Hans Staden, o aventureiro alemão que foi prisioneiro dos Tupinambás em meados do século XVI, escreveu: “há ali pequenos insetos, parecidos com pulgas, mas um pouco menores e que chamam de tunga na língua dos selvagens. Surgem nas cabanas devido à sujeira das pessoas e grudam nos pés. Apenas coçam quando penetram na carne,  e comem a carne sem que se possa realmente senti-los. Quando não se presta atenção e não são logo extraídos, formam um nicho arredondado como uma ervilha. Quando se percebe e logo se tira o animalzinho, fica um pequeno buraco na carne, do tamanho de uma ervilha. Quando cheguei a essa terra com os espanhóis, não tardou muito para eu ver como os insetos deixaram em horrível estado os pés de alguns de nossos camaradas que não lhes deram atenção“. (Staden, H. Duas Viagens ao Brasil. Porto Alegre:L&PM,2009.p.175)

Essa descrição,  feita há mais de 450 anos atrás, é muito realista. Quem já viu alguém com bicho-de-pé certamente identifica cada trecho da narrativa.

O  “inseto, parecido com pulga” ao qual H. Staden se refere é de fato uma pulga, porém muito menor do que aquelas que parasitam cães e gatos, por exemplo. A Tunga penetrans  mede apenas um milímetro de comprimento e seu nome científico, dado em 1838, aproveitou o termo indígena pelo qual era conhecido.

Tunga penetrans sobre a pele do hospedeiro. Ampliação aproximada: 50 x. Imagem em Sciencephotolibrary

Tunga penetrans sobre a pele do hospedeiro. Ampliação aproximada: 50 x. Imagem em Sciencephotolibrary

Para H. Staden e as pessoas de sua época, as pulgas surgiam por geração espontânea, a partir da sujeira, no entanto, o fato real é que elas se originam de ovos que parecem ser capazes de permanecer longo tempo no meio ambiente, especialmente em solos arenosos e pouco iluminados. No Brasil, essas pulgas podem ser encontradas em todo território nacional, especialmente em comunidades carentes e sem acesso a moradias adequadas, podendo em algumas regiões, segundo pesquisas recentes, atingir quase 50% da população.

Cães, gatos, ratos, ovelhas, burros, elefantes, macacos e outros mamíferos podem ser parasitados e  são focos de disseminação do parasita.

A pulga pula somente cerca de 20 cm, por isso a infestação geralmente se restringe aos pés ou pernas, mas pode acontecer em qualquer parte da pele.

O ciclo de vida dos animais é bastante complexo, pois como muitos outros insetos, as pulgas passam por metamorfose completa antes de chegar à vida adulta.

Ciclo de vida da Tunga penetrans (fora de escala, cores artificiais)

Ciclo de vida da Tunga penetrans, causadora do bicho-de-pé (fora de escala, cores artificiais)

1- Ovo – que mede entre 600-320 micrômetros

2- Larvas – saem dos ovos de 1 a 6 dias depois da postura e ficam parcialmente enterradas no solo arenoso

3 – Pupa – se forma 5 a 11 dias após a eclosão da larva. O casulo é protegido por grãos de areia. O processo de metamorfose da pupa se completa em 9 a 15 dias.

4 – Adultos – a fêmea não fertilizada suga sangue do hospedeiro e em seguida começa a escavar a pele. Acomodada na cavidade, ela fica com a parte posterior do abdômen volta para a superfície da pele  e é fertilizada por uma pulga macho.

5- Tem início o processo de hipertrofia do abdômen que chega ao tamanho de uma ervilha. Geralmente três dias depois da penetração, surge um halo branco ao redor de um ponto negro. No momento do maior crescimento abdominal, a pulga, que era a menor do mundo, agora tem um diâmetro de 5 a 10 mm, o que corresponde a um aumento de volume de 2000 a 3000 vezes. Esse abdômen tão aumentado abriga entre 100 e 200 ovos estão maduros e prontos para ser dispersos. Cerca de 3 semanas após penetrar a pele, a fêmea morre.

Ovos de Tunga penetrans muito ampliados ( foto em www.healthinplainenglish.com)

Ovos de Tunga penetrans muito ampliados ( foto em http://www.healthinplainenglish.com)

Aspecto do local parasitado (foto em www.healthinplainenglish.com)

Aspecto do local parasitado (foto em http://www.healthinplainenglish.com)

Por diversos motivos o bicho-de-pé (tungíase) é uma parasitose negligenciada. Geralmente a presença do parasita não é entendida como algo grave ou como uma doença. Muitas pessoas dizem sentir uma “coceirinha agradável” no início do processo, porém poucos dias depois o local começa a doer muito. Se nada for feito, e quando há a presença de muitos parasitas, as cavidades escavadas pelas fêmeas podem ser  a porta de entrada para infecções graves que em alguns casos chegam a exigir a amputação do dedo, pé, ou perna e que sem assistência médica podem levar à morte.

Não há tratamento para a parasitose, a forma usual de eliminar o parasita é a retirada da cápsula com o auxílio de agulha esterilizada.

Professor: O bicho-de-pé é um ectoparasita importante em nosso país e a causa de graves problemas de saúde que podem inclusive levar à morte. É preciso conscientizar os alunos de que o bicho-de-pé é uma doença. Questione os alunos sobre os conhecimentos que possuem sobre o tema. Permita que eles contem suas experiências a respeito. Estimule os alunos a propor formas de diminuir a  incidência do bicho-de-pé na população brasileira. Para orientar a discussão saiba que os pesquisadores têm poucas sugestões a dar,  as principais são: evitar caminhar descalço ou de chinelos em áreas propícias ao desenvolvimento das pulgas; morar em residências com piso cimentado; manter animais de criação em áreas com piso cimentado e distantes da casa; manter casa e arredores sempre limpos.

Sobre sapos, aves e venenos

 

Diz a crença popular que os sapos são perigosos porque esguicham seu veneno nos olhos de quem se aproxima deles. No entanto, até o início de 2012, os cientistas afirmavam que não, isso não era verdade. A explicação dada até então, era que os sapos realmente  produzem um veneno muito tóxico em grandes glândulas existentes  logo atrás da cabeça, as paratoides, mas  eles não teriam como   espirrar esse veneno.

Os sapos possuem aquilo que os pesquisadores chamam de “defesa passiva”, isto é, o veneno só é liberado se houver pressão externa sobre as paratoides. Isso acontece, por exemplo, quando um animal abocanha o sapo e ao apertá-lo, comprime as paratoides. O veneno esguicha,  irrita a mucosa da boca,  e é absorvido por ela, podendo até matar o predador por parada cardíaca. Acidentes fatais com filhotes de cachorros não são incomuns.

Quando um sapo se sente ameaçado,   tenta  afugentar o predador, para isso, enche os pulmões, expondo as paratoides, como um  alerta para o perigo.

Até 2012, era essa a explicação, no entanto, naquele ano, pesquisadores do Instituto Butantan observaram um comportamento único entre os sapos. Animais da espécie Rhaebo guttatus, quando se sentem ameaçados, adotam um comportamento ativo e hostil e são capazes de esguichar o veneno das paratoides em direção ao que os incomoda. Para isso, quando importunados, eles fazem barulhos com a boca e se isso não for suficiente,  expandem as glândulas ao encher os pulmões de ar. Em seguida, fazem movimentos com as patas dianteiras de modo que  alguns músculos e a omoplata, um osso chato próximo à paratoide comprimam essas glândulas esguichando o veneno a até 2m de distância.

mapa sapo na amazonia

sapo esguicha veneno 1

                                                                                                                         Distribuição geográfica do sapo R.guttatus

R. guttatus  esguicha o veneno (foto em http://posgrad.butantan.gov.br)                                               

Esse comportamento único, poderia ter sido a origem da crença popular que, equivocadamente, generalizou esse comportamento para todos os sapos.

No endereço eletrônico: http://g1.globo.com/natureza/noticia/2012/03/pesquisa-brasileira-descobre-que-sapo-esguicha-jatos-de-veneno.html há a notícia da descoberta desse comportamento incomum e um pequeno filme que mostra o sapo expelindo o veneno.

Os venenos

Os venenos possuem composição que varia de acordo com a espécie que os produz. Na pele das rãs da família Dendrobatidae, glândulas especializadas secretam toxinas muito poderosas.

A pequena Philobattes terribilis (mede de 4,5 a 4,7 cm do focinho ao final do corpo secreta  batracotoxina (do gregobatrachos = , e toxine = veneno),  uma substância mortal, inclusive para os seres humanos. Por isso, a P. terribilis é considerada  por alguns pesquisadores como um dos animais mais venenosos do mundo.

Philobattes terribilis

Philobattes terribilis (4,5 a 4,7 cm – menor do que o polegar da maioria das pessoas)

Estima-se que 100 microgramas de batracotoxina, o que corresponde à massa de dois grãos de sal aproximadamente, são suficientes para matar um homem adulto de 70 kg. Na pele de uma única rã, há veneno suficiente para matar 20.000 camundongos ou 10 seres humanos. Esses animais podem ser encontrados nas florestas tropicais e úmidas na base da cordilheira dos Andes colombiana.

O veneno pode entrar no organismo por pequenas lesões na pele, quando o animal é manipulado com as mãos limpas, por exemplo. Levado pela corrente sanguínea, ele bloqueia a transmissão dos impulsos nervosos para os músculos, provocando paralisia, especialmente do músculo cardíaco. Não há antídoto para a batracotoxina.

Essa pequena rã é usada pelos índios colombianos para envenenar as flechas que usam na caça. A rã é capturada e a flecha esfregada sobre a pele do animal. Essa flecha envenenada é muito mais eficiente porque o animal atingido rapidamente fica paralisado.

Curiosamente, quando a Philobattes  e outras rãs que produzem toxinas são mantidas em cativeiro vão perdendo sua toxicidade, até que duas ou três gerações depois os animais já não produzem essas toxinas venenosas. A explicação para isso parece estar na dieta dos animais, pois em cativeiro eles não se alimentam dos insetos encontrados em seu ambiente natural.

Por mais incrível que pareça, a batracotoxina, que é produzida por pouquíssimos animais, é encontrada também nas penas de algumas aves.  Em 1989, pesquisadores que estudavam aves em Papua Nova Guiné estenderam redes na mata e capturaram aves do gênero Pitohui . Ao tentar desembaraçá-las da rede,  um deles machucou as mãos. O local doeu muito e o pesquisador levou a mão à boca.  Quase imediatamente língua  e lábios começaram a formigar e queimar.

O pesquisador e seus colegas não entenderam direito o que acontecia, afinal, quem havia ouvido falar de aves venenosas?

Apesar do espanto da equipe,  os nativos locais demonstraram saber que aquela ave era diferente da maioria.

Para comprovar a teoria de que o animal era venenoso,  um dos pesquisadores  teve uma ideia não muito brilhante, passou uma pena em na língua. Rapidamente, ele descobriu que não deveria ter feito isso, o veneno existente na pena queimou e doeu  durante horas. Intrigados,  os pesquisadores levaram algumas penas  para analisar e, em 1992, a substância sobre elas foi identificada: era a uma variedade um pouco menos letal de batracotoxina.

Posteriormente outra ave (Ifrita kowaldi) com as mesmas características foi encontrada há mais de 2000 m de altitude em uma região de planalto.

Essas são as únicas aves venenosas que se conhece, nelas, o veneno se encontra espalhado sobre todo o comprimento das penas, especialmente das que revestem as pernas, o contorno da barriga e o peito.

Ifrita kowaldi  se alimenta exclusivamente de insetos.  As cinco espécies de  Pitohui  se alimentam de frutas, insetos e pequenos vertebrados.

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Pitohui  sp.                                                                                                                                                           Ifrita  kowaldi

Medições feitas, revelaram que a quantidade de toxina encontrada nas penas varia de acordo com o local de captura das aves  e com as diferentes épocas do ano. Esses resultados parecem confirmar a hipótese de que a  origem da toxina está na alimentação das aves. Além disso, os pesquisadores descobriram que um grupo de besouros, do gênero Choresine, possui essa toxina  e esses besouros foram encontrados no estômago das aves.

Besouro besouro Choresine

mais informações em: http://www.pnas.org/content/97/24/12970.long e  http://www.cosmosmagazine.com/weird-animals/hooded-pitohui-toxic-songbird/

Professor: Reunimos algumas descobertas relativamente recentes e algumas curiosidades sobre o reino animal para destacar a importância da observação na pesquisa científica e a imensa biodiversidade do planeta. Quando os alunos compreenderem isso, adotarão outra postura frente ao ambiente natural. Aprenderão a olhá-lo com outros olhos e a valorizar cada pequena espécie que nele habita. O texto também pode servir para orientar que a atitude do pesquisador ao colocar a pena na boca é totalmente contraindicada, ele só não teve um problema maior porque a quantidade de toxina ingerida foi muito pequena, já que essas aves não acumulam  quantidades  tão grandes de toxina quanto a rã Philobattes. 

Mamonas, às vezes assassinas e outros venenos naturais

Temas atuais que surgem nos noticiários podem ser o ponto de partida de aulas diferentes e interessantes. Por exemplo:

Em abril, pouco depois do atentado de Boston, os noticiários informaram que uma correspondência contendo potente veneno havia sido endereçada ao presidente dos Estados Unidos.

O veneno?

Ricina.

A ricina é uma toxina, encontrada em uma planta muito comum em nosso país, a mamoneira (Ricinus communis), também conhecida como rícino, carrapateira, enxerida e palma-de-cristo.

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Muitas plantas produzem substâncias tóxicas, mas a ricina parece ser a mais potente toxina vegetal. Ao ser inalada, ingerida ou injetada, a ricina entra nas células e se liga aos ribossomos, impedindo a produção de proteínas e levando a célula à morte. Os sintomas da intoxicação dependem da forma pela qual a ricina entrou no organismo, mas, sempre demoram horas para aparecer e geralmente incluem diarreia, taquicardia, náuseas, convulsões. Dependendo da via de contaminação e da dose recebida, pode haver comprometimento das funções pulmonares com dificuldade respiratória que pode levar à morte, entre 36 e 72 horas após a  intoxicação.

Na planta, a ricina é sintetizada no endosperma da semente da mamona. Por meio de processos relativamente simples, ela pode ser purificada a partir dos resíduos  da fabricação do óleo de rícino. Quantidades muito pequenas, menos de 1,8 microgramas (massa de alguns grãos de sal) são letais para um homem adulto.

A intoxicação, também pode acontecer acidentalmente, pela ingestão de sementes de mamona. Mas seriam necessárias a polpa de 8 grãos ou 15 a 20 sementes inteiras para trazer risco a uma criança, por isso, esse tipo de acidente é muito raro.

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Por causa de seu potencial para causar danos ao organismo humano e de outros animais, a ricina já foi usada em atividades de espionagem que mais parecem saídas de um filme: no ano de 1978, um jornalista búlgaro que vivia em Londres foi  atacado por um homem com um guarda-chuva de onde foi disparada uma pelota de ricina  que se alojou sob a pele do jornalista. Poucos dias depois o jornalista morreu e durante a autópsia, os médicos encontraram a pelota contendo o veneno.

Curiosamente, o óleo de rícino utilizado desde a Antiguidade (há registros de seu uso no antigo Egito) como medicamento, e extraído das sementes da mamona,  não é tóxico, porque a ricina não é lipossolúvel (solúvel em óleo). A ingestão de óleo de rícino tem efeito laxante e produz o esvaziamento intestinal poucas horas após sua ingestão. Doses excessivas produzem náusea, vômito, diarreia.

No entanto,  muito mais importante do que a ricina, é o óleo que a mamoneira produz. A área da pesquisa que se ocupa de identificar aplicações para esse óleo e seus derivados é a  ricinoquímica, (similar à petroquímica).  Assim como o petróleo, o óleo de mamona é usado na produção de uma imensa gama de compostos, como por exemplo:  biodiesel,  lubrificantes e fluidos hidráulicos,  resinas e borrachas,  cosméticos,  fungicidas,  impermeabilizantes de tecidos,  tintas,  perfumes e aromas sintéticos. Estes e muitos outros produtos são usados nas indústrias naval, eletro-eletrônica, de construção civil, de refrigeração, de cosméticos e de produtos médicos, veterinários e odontológicos.

Cicuta

Mas a produção de compostos tóxicos para os seres humanos não é exclusividade da mamoneira, há outras plantas que também produzem venenos, como a cicuta, produzida pelo Conium maculatum, uma espécie nativa da Europa que foi introduzida em muitas outras partes do mundo, no entanto, no Brasil sua ocorrência é incomum (no mapa as regiões em que a planta já foi identificada).

Conium maculatum, Poison Hemlock

ilustrações são do site:  http://www.discoverlife.org/mp/20q?search=Conium+maculatum&guide=Wildflowers&cl=US/CA/Monterey/Hastings_Reserve

  A planta produz diversos compostos, e o mais conhecido destes produtos químicos é um alcalóide, a conina, que atua sobre o sistema nervoso central provocando paralisia gradual dos músculos, até haver parada cardio-respiratória.  Para um adulto, mascar 6 a 8 folhas da planta pode ser fatal.  Animais, principalmente o gado também podem morrer ao consumir o Conium.

Na Grécia antiga, a cicuta era usada para envenenar presos,  a mais famosa vítima da cicuta foi  filósofo Sócrates, cuja morte foi descrita por Platão.

Estricnina

A planta , também conhecida como noz-vómica, noz-vomitória ou fava-de-santo-inácio é uma árvore de porte médio, nativa da Índia e sudeste da Ásia. Suas flores e sementes armazenam, entre outros compostos, dois poderosos alcaloides, a estricnina e a brucina. A estricnina provoca fortes convulsões, aumento da pressão arterial e paralisia dos nervos periféricos. A brucina atua principalmente sobre os nervos periféricos, paralisando-os. No passado, a estricnina   foi usada como medicamento, mas o risco de envenenamento é muito alto e atualmente não há aplicação na medicina tradicional para esse composto, no entanto, ele é empregado na medicina homeopática.

Strychnos nux-vomica

ilustração em

http://www.botanicalgarden.ubc.ca

Professor: ao apresentar o tema aproveite para discutir a afirmação que comumente costumamos ouvir: “se é natural não faz mal”. Com os exemplos anteriores fica bem fácil perceber o grande e grave erro contido na frase. Os alunos podem ser estimulados a pesquisar outras substâncias naturais que são tóxicas aos seres humanos, como por exemplo, a toxina botulínica, ou os alcaloides presentes em plantas como: comigo-ninguém-pode e tantas outras. Se a turma for de ensino médio, a ação da ricina sobre os ribossomos pode ser um modo de destacar a importância do papel dessas organelas e relembrar o processo de síntese proteica.

No próximo post, pretendo comentar alguns venenos produzidos por animais.

Aranhas perigosas

As aranhas, frequentemente, causam  em muitas pessoas medo, aversão e repulsa. Em casos mais raros, esse medo manifesta por meio de  crises de pânico com suor frio e taquicardia,  que recebem o nome de aracnofobia. Nestes casos, a repulsão sentida pela pessoa é tão forte que é preciso ajuda de terapia para superá-la. Esse medo desmedido provavelmente tem raízes culturais e se relaciona à aparência das aranhas e ao veneno que elas produzem.

Quimicamente, o veneno das aranhas é uma complexa mistura de diferentes substâncias. Há grande variedade de venenos e todas as aranhas possuem glândulas de veneno, assim, todas são venenosas, especialmente para suas presas. No entanto, dentre as mais de 40.000 espécies de aranhas, somente  duzentas são perigosas  e têm potencial para causar a morte de seres humanos. Essas espécies estão agrupadas em quatro gêneros:  Atrax, Latrodectus, Loxosceles e Phoneutria.

Estima-se que  anualmente, no mundo todo, estas aranhas causem a morte de aproximadamente 200 pessoas.

Atrax  (aranha teia de funil)

É nativa da Austrália e uma das mais venenosas do mundo. Seu corpo mede entre 1 e 5 cm. O veneno provoca dor, tremores, cãibras musculares, confusão visual e paralisia dos centros respiratórios. Apesar disto, em mais de 100 anos de relatos, somente houve doze acidentes fatais.

Atrax robustus

fonte da fotografia: Britannica.com

Latrodectus (viúva-negra)

A viúva negra é uma aranha  muito pequena, com cerca de 1 cm de comprimento. Caracteristicamente, possui abdome negro com uma mancha vermelha na região ventral (há espécies com manchas brancas ou marrons). Costuma viver em locais escuros e abrigados, em gramados, parques, jardins. No Brasil frequentemente são encontradas nas regiões litorâneas, especialmente da região Nordeste.

O nome popular das aranhas do gênero Latrodectus, viúva-negra, se deve ao fato de que a aranha macho morre logo após a fertilização da fêmea.

A fêmea geralmente é maior e é a causadora da maioria dos acidentes.

No momento da picada geralmente não dói, mas alguns minutos depois pode surgir dor intensa, tremores, sudorese, cãibras. Os músculos abdominais ficam rígidos. O rosto fica vermelho, os lábios e pálpebras inchados.  A rigidez da musculatura pode se estender aos músculos respiratórios, produzindo parada respiratória e morte. O tratamento com soro específico traz bons resultados.

fonte da fotografia: http://www.umm.edu/imagepages/19582.htm

Loxosceles  (aranha marrom)

As aranhas marrons não são agressivas e os acidentes geralmente ocorrem como forma de defesa, pois elas entram em sapatos, tênis e se escondem nas roupas e quando nos vestimos ou calçamos, comprimimos o animal contra o corpo. As aranhas marrons são muito pequenas, o corpo mede cerca de um centímetro de comprimento (na foto uma aranha marrom ao lado de uma tampinha de refrigerante), mas isso não as torna inofensivas.

Aranha marrom-1Aranha marrom-10

Aranha marrom (Loxosceles intermedia)

A picada não dói, mas em algumas pessoas, no local surgem feridas profundas e extensas. Estas feridas surgem pela ação de um dos diversos compostos que constituem o veneno, a enzima esfingomielinase.  Sem tratamento o veneno pode causar falência  renal e morte.

Para neutralizar as toxinas circulantes  no sangue, deve ser aplicado soro específico, o soro antiloxoscélico, que é produzido pelo Instituto Butantan.

Como a picada da aranha-marrom não dói e os efeitos no local surgem depois de algumas horas,  as pessoas só procuram ajuda quando o ferimento já está se desenvolvendo. O problema é que essa ferida é de difícil tratamento e pode levar meses para cicatrizar. Em alguns casos, é preciso fazer enxertos de pele para reparar os danos.

Fotografia em http://www.ces.ncsu.edu/depts/ent/notes/Urban/recluse.htm

Em 2012, segundo o Ministério da Saúde, em todo o país ocorreram 7434 acidentes com aranhas marrons (com 3 óbitos) , sendo mais da metade deles (4091) no Paraná, especialmente em Curitiba (1357).

As aranhas marrons costumam se abrigar nas casas, onde se escondem em caixas, gavetas, sapatos e no guarda roupa, por isso é preciso cuidado ao colocar a mão em locais onde elas possa estar escondidas. Limpar os pátios das casas, evitando entulhos e acúmulo de papéis também é um modo de reduzir os riscos de acidentes. A aranha marrom não constrói teias circulares, mas produz um emaranhado de fios nos lugares onde se esconde.

Fotografia em http://www.cit.sc.gov.br/index.php?p=aranhas

Um predador importante de Loxosceles, são as lagartixas.

Phoneutria (aranha armadeira)

São as aranhas mais venenosas. Em contraste com as espécies descritas acima, a armadeira é muito agressiva, ao se sentir ameaçada, levanta os dois pares de pernas dianteiras e se apoia nas traseiras,  mostrando as manchas listradas abaixo das pernas como sinal de alerta.

Fotografia em: http://www.ceo.org.br/estudos/preven.htm

As armadeiras podem atingir de 3 a 4 cm de corpo e até 15 cm considerando o comprimento das patas.  São animais que podem buscar abrigo no interior das casas ou no meio de folhagem, como na bananeira.  Os acidentes ocorrem  dentro das residências ou no meio rural durante a colheita da banana, por causa disso, nos Estados Unidos esta aranha é conhecida como aranha da banana.

A picada causa intensa dor local, tremores, taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos), vômitos, suor frio. Em testes em laboratório, constatou-se que a aranha pode injetar 8 mg de veneno em uma picada, o que, teoricamente, seria capaz de matar 300 camundongos. Apesar disso, os casos de morte pela picada de Phoneutria são relativamente raros, pois o uso de soro específico é muito eficaz.  Em 2012, foram 3538 acidentes com aranhas armadeiras no Brasil, com um óbito registrado.

Professor: depois de abordar essas informações com os alunos, estimule-os a produzir um folheto com instruções sobre como prevenir acidentes com aranhas e que medidas tomar no caso de acidentes. Chame a atenção para o fato de que as aranhas são relativamente pequenas e à exceção da viúva negra, Loxosceles e Phoneutria costumam se esconder dentro de casa. Destaque ainda que Atrax não ocorre no Brasil.

No endereço eletrônico:

http://portal.anvisa.gov.br/wps/portal/anvisa/anvisa/home faça a busca RENACIAT e entre na página com a lista dos  endereços e telefones dos diversos Centros de Informações Toxicológicas nos Estados, neles é possível obter informações sobre como proceder em casos de acidentes com aranhas ou quando houver suspeita deste tipo de acidente.

Aranhas

Uma forma de abordar esse conteúdo é perguntar as concepções prévias que os alunos têm sobre estes animais. Provavelmente a maioria das respostas vai mencionar que aranhas são animais perigosos. Porém será que essa afirmação é verdadeira?

Não raramente, as aranhas são vistas como seres muito perigosos que nos ameaçam com suas presenças, no entanto, a verdade é que poucas espécies oferecem risco real e a maioria delas, cumpre um importantíssimo papel ambiental ao capturar insetos, evitando que eles se multipliquem sem controle.

Há uma variedade muito grande de aranhas que podem ser encontradas nos mais diversos ambientes.

aranha 6-001

As aranhas fazem parte do grupo dos artrópodes, e como tal possuem exoesqueleto e patas articuladas. É provável que algum aluno já tenha visto uma “casquinha” com jeito de aranha presa a alguma cortina, por exemplo. Essa “casquinha” é o exoesqueleto de onde a aranha saiu para poder crescer.

Todas as aranhas possuem o corpo dividido em cefalotórax e abdome. Na imagem abaixo, o abdome é a porção maior com manchas amarelas e o cefalotórax é a região onde se inserem as oito patas, os palpos, com os quais elas manipulam objetos e as quelíceras com as quais injetam o veneno.   A maioria das aranhas possui oito olhos, no entanto, elas se orientam principalmente pelo tato e pela identificação de compostos químicos presentes  no meio.

IMG_2344        Aranha escondida na bromélia 02-04-2009 00-25-03

Na foto podemos ver alguns olhos da tarântula.

Utilize a fotografia abaixo e convide os alunos para  contar o número de patas e o local onde elas se inserem. Peça que os alunos façam um desenho esquemático do corpo da aranha e suas patas.

aranha 2

Observe que essa aranha da foto acima está rodeada de fios. Todas as aranhas produzem “seda”, um fio muito resistente com o qual elas capturam as presas ou usam para envolver e proteger seus ovos.

Aranha - Ooteca

Algumas aranhas tecem e carregam consigo uma ooteca que abriga os ovos.

P1170728-001                                        ooteca

Ooteca com ovos (4) Ooteca com ovos (10)

 

 

 

 

 

 

 

Mas o uso mais conhecido para o fio que elas produzem é a construção de teias. Cada espécie tem seu padrão de teia.

Teia (7)Teia (11)P1080468-001

Seja qual for a finalidade do fio,  ele inicialmente é um líquido produzido por glândulas (fiandeiras) localizadas  dentro do abdome. Há seis tipos de glândulas e cada uma produz um tipo de material. Em contato com o ar essas substâncias se transformam em fio. Muito resistente,  esse material vem sendo estudado na tentativa de ser sintetizado em laboratório. O gráfico  indica a resistência  de fio produzidos por diversos  materiais e esticados até rasgar (fonte: Foelix R.F. Biology of Spiders. N.York:Oxford, 2011). Observe que a seda produzida pela aranha é o material mais resistente quando comparado à celulose, osso, borracha e tendão e tem a metade da resistência do aço.

Tabela resistência fio seda aranhas

No endereço:  http://youtu.be/7eajCVMBLdI  disponibilizei um pequeno vídeo em que é possível ver o trabalho de uma aranha construindo sua teia. Peça aos alunos que assistam com atenção e verifiquem que o fio da teia sai da extremidade do abdome. Aranhas como estas,  produzem teias aéreas circulares (orbiculares) que, colocadas em lugares estratégicos,  funcionam como armadilhas, prendendo insetos que servirão de alimento para a aranha. Os insetos ficam presos nos fios pegajosos desse tipo de teia.

IMG_2153    Pequeno inseto preso à teia

Mas, se os fios são pegajosos, porque as próprias aranhas não ficam presas neles? Desafie os alunos a buscar uma explicação para este fato. Deixe que eles exponham suas ideias ou pesquisas.

Depois explique que isso é possível porque na verdade, os fios não são pegajosos, as aranhas colocam sobre alguns deles  uma substância que os tornam grudentos. Mas, a aranha não coloca esse material em todos os fios, apenas naqueles que formam a espiral,  os fios do raio e da moldura geralmente não  recebem essa camada pegajosa e é por eles que a aranha se movimenta.

Ao sentirem que uma presa foi capturada, as aranhas vão até elas e perfuram seus corpos com as quelíceras, por onde sai o veneno que paralisa ou mata a presa. Algumas espécies envolvem a presa na seda e a levam para a toca ou esconderijo. Para se alimentar, algumas injetam na presa um líquido contendo enzimas, que faz a digestão do animal e a aranha apenas “suga” essa material liquefeito.

quelíceras - desenho   Quelíceras ampliadas  cerca de 160 vezes. Na extremidade as aberturas por onde o veneno sai.

Aranhas são grandes caçadoras e às vezes capturam presas muito maiores do que elas.

Aranha caçando-1Aranha caçando-2 Aranha caçando e imobilizando a mosca..-5

Peça aos alunos para observarem com atenção as imagens das aranhas com suas presas. Chame a atenção para o tamanho da aranha e da presa.

Das mais de 40.000 espécies, somente cerca de 200 trazem algum risco para os seres humanos. Vamos conhecer um pouco mais sobre elas no post seguinte.

Tatu – animal símbolo da Copa do Mundo

Com a copa do mundo, o tatu-bola, um animal endêmico da fauna brasileira, será o mascote do torneio e naturalmente despertará a atenção de todos. Por isso, atividades envolvendo esses animais tão pouco conhecidos são muito oportunas.

As 30 espécies de tatus habitam a América do Sul, Central e sul do continente norte-americana. Têm hábitos noturnos e vivem e se escondem em tocas escavadas no solo, por isso, são pouco conhecidos e pouco vistos. Todas se caracterizam por apresentar placas que formam uma carapaça resistente e protetora. Essa “armadura” possui um número variável de anéis ou cintas que lhes dão certa flexibilidade.

A maior espécie vivente é o tatu-canastra (Priodontes maximus), que chega a medir um metro de comprimento (só a cauda pode ter  50 cm) e ter massa superior a 60 kg. O menor tatu  (Chlamyphorus truncatus) tem o tamanho da palma da mão (entre  8,5 cm e 12 cm), vive no chaco argentino e possui placas rosadas no dorso e longos pelos brancos nas laterais do corpo. Há cerca de 20 mil anos atrás, viveu na região que hoje corresponde ao estado do Tocantins, um tatu muito grande, com 2,5 m de comprimento e 80 kg de massa. Um fóssil desse animal gigante foi encontrado em 2012, em uma caverna no Tocantins. Outros fósseis ainda  maiores  foram descobertos em Minas, Piauí e na Argentina e receberam o nome de Pampatherium. Estes animais provavelmente chegaram a ter massa entre 100 e 200 kg.

A parte dianteira do tatu gigante

ilustração em http://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/fossil-de-tatu-gigante-descoberto-em-caverna-no-tocantins-3797166.html

Nos dias de hoje, no Brasil, a espécie,  (Tolypeutes tricinctus)  tem a capacidade de se enrolar, formando uma bola perfeita, daí o nome popular que recebem: tatu-bola. Por essa característica, o tatu-bola, foi o  escolhido para símbolo da copa do mundo de 2014.

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O ato de se enrolar é uma forma de defesa, pois as placas que recobrem o corpo dos tatus são rígidas e conseguem proteger do ataque de alguns predadores. No entanto, a maioria dos tatus é incapaz de se enrolar completamente como o tatu-bola e para se defender escondem-se em tocas que escavam no solo com auxílio de suas poderosas garras dianteiras.

Os tatus olhos dos tatus são pequenos e pouco eficientes, por isso, eles se  orientam principalmente pelos sons e pelo olfato. Para procurar alimento cheiram e escavam o solo freneticamente, colam o focinho no chão e, quando encontram alimento (insetos, principalmente formigas; larvas; minhocas e animais em decomposição), rapidamente o abocanham e engolem.  Os tatus fazem parte de um grupo anteriormente designado de DESDENTADOS ou EDENTATA, no entanto, eles não são realmente desprovidos de dentes, na verdade há espécies, como o canastra que têm cerca de 100 dentes, mas eles são pequenos e bem simples.

Imagem  Tatu galinha (Dasypus novemcinctus)

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O tatu cava o solo em busca de alimento.                                                                                                    Para isso usa as fortes patas dianteiras.

No endereço: http://youtu.be/iRuEL9gURM4, disponibilizei pequeno filme que mostra um tatu-galinha jovem, em busca de alimento. Convide os alunos a assistir ao filme com bastante atenção. Sugira  que eles, primeiramente, assistam ao vídeo por completo, depois peça que o vejam novamente e observem com atenção diversas características do animal, como:  as orelhas  (posição, tamanho, movimentos); o movimento das placas articuladas quando o tatu se move; o tamanho dos olhos; o modo de engolir rapidamente a presa. Peça que procurem relacionar algumas destas características anatômicas do animal a seus hábitos de vida. O tatu galinha tem entre 8 e 10 cintas, mas comumente 9, o que foi a característica usada para a denominação da espécie : Dasypus novemcinctus (novemcinctus = 9 cintas). A partir desta informação questione os alunos sobre o número de cintas que podem ser observadas no tatu-bola.

Utilize o desenho abaixo para mostrar como o esqueleto das patas anteriores é adaptado à atividade de cavar o solo.

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ilustração baseada em Vertebrate Life – Bough e al. Pearson.

Peça aos alunos que observem que em 1, há  expansões ósseas para a fixação dos grandes músculos que permitem ao animal cavar o solo endurecido. Em 2, destaque que o osso rádio é curto, dando mais eficiência à ação da musculatura. Os ossos do carpo, metacarpo e falanges (3) são bem curtos, em compensação, as garras são longas  e fortes (4) para escavar o solo. A extremidade muito alongada da ulna (5), dá maior eficiência aos movimentos produzidos pelos músculos.Pata de digitígrado - cão

A estrutura esquelética da pata anterior do tatu pode ser comparada à estrutura de  membros superiores de outros mamíferos, por exemplo, dos cães, que são animais adaptados para correr e que se apoiam sobre os dedos e por causa disso são denominados digitígrados. Na ilustração, 2 representa o tarso, 1 são os ossos do metatarso e 3 as falanges, sobre as quais o animal se apoia ao caminhar.

Os alunos podem ser estimulados a pesquisar outras formas de locomoção apresentadas pelos mamíferos: plantígrados, como os seres humanos que caminham sobre a planta dos pés ou ainda os ungulígrados que se apoiam somente na última falange dos dedos, a qual geralmente é protegida por cascos, por exemplo, os cavalos e veados. Essa discussão se torna mais interessante se for direcionada para as vantagens adaptativas de cada uma destas estruturas, relacionando-as ao ambiente e aos hábitos de cada um destes animais.

Postei mais algumas fotos do tatu galinha em meu blog planetabio.wordpress.com. Aproveite-as.

Maré vermelha intoxica e mata peixes-boi

Notícia do dia 04 de abril de 2013, informa que nos três primeiros meses do ano, na costa da Flórida, ocorreu a morte de pelo menos 241 peixes-boi.  Esses animais, também conhecidos como manatis, pertencem à espécie Trichechus manatus e são conhecidos como  peixes-boi marinhos. Eles são grandes mamíferos que chegam a medir até 4 metros e ter massa de 800 kg e se alimentam exclusivamente de plantas e algas.

peixe-boi

                                                  foto wikimediacommons: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:FL_fig04.jpg

A causa de tão grande mortandade foi proliferação descontrolada de certas algas  muito comum nas águas costeiras da Flórida, como os dinoflagelados da espécie Karenia brevis. O fenômeno, conhecido como maré vermelha, se dá quando, por motivos ainda não identificados,  algas microscópicas,  se multiplicam exageradamente  e liberam grande quantidade de neurotoxinas na água.

Os peixes-boi se intoxicam ao inalar essas substâncias ou ao se alimentar de  plantas contaminadas por elas. A toxina causa convulsões e paralisia, levando à morte por afogamento.

Além dos peixes-boi, esses compostos também podem causar a intoxicação de diversos organismos das cadeias alimentares aquáticas, como peixes, aves, mamíferos marinhos e moluscos filtradores (mariscos, ostras e mexilhões). Os seres humanos se intoxicam pela ingestão de alimentos contaminados, o que pode causar dormência na boca, perturbações gastrintestinais e  até matar.

Essa grande proliferação de algas vem  acontecendo desde setembro de 2012, em  uma duração incomum . Uma hipótese para a intensidade e permanência do fenômeno por tanto tempo, é a grande presença  de fósforo e nitrogênio nas águas,  cuja origem são os fertilizantes usados nas fazendas  e  nos gramados das residências.

A morte de tantos animais em curto período é muito preocupante, porque a população estimada de peixes-boi na região é de apenas 5000 indivíduos. E ainda que a maré vermelha tenha diminuído de intensidade, é provável que muitos animais continuem a morrer nos próximos meses, já que a vegetação da qual os peixes-boi se alimentam continuará contaminada. Centros de pesquisa vêm tentando resgatar os animais doentes para tratá-los e depois devolvê-los ao ambiente.

Os peixes-boi marinhos também podem ser encontrados no litoral norte e nordeste brasileiro.  Além desta espécie, há nos rios da Amazônia  uma outra, um pouco menor, Trichechus inunguis, que vive exclusivamente em água doce.

Tal como na costa da Flórida,  os peixes-boi que habitam o território brasileiro constituem pequenas populações que, segundo a União Internacional Para a Preservação da Natureza (UICN) se encontram em situação vulnerável. No passado, os animais foram caçados por causa de sua carne, gordura e couro. No presente a caça é proibida, mas muitos animais morrem presos acidentalmente em redes de pesca ou feridos pelas hélices dos motores dos barcos, além disso, seu ambiente natural encontra-se cada vez mais comprometido pela presença e intervenção dos seres humanos. Contribui também para a diminuição das populações o fato dos animais terem baixa taxa de reprodução, cada fêmea dá a luz a um filhote apenas a cada três anos.

peixe-boi

Trabalho em sala de aula:

A notícia, ao ser comentada com os alunos, pode ensejar diversas discussões interessantes:

1-   estimule a turma para pesquisar sobre os Sirênios e suas características. Na revista Ciência Hoje de setembro de 2006 há matéria esclarecedora sobre estes animais ainda tão pouco conhecidos. No endereço eletrônico há o texto integral da matéria: http://www.icb.ufmg.br/labs/lbem/pdf/viana06ch-peixeboi.pdf

2- questione a origem do nome popular dos animais:  Porque eles são conhecidos como peixes-boi? A resposta se relaciona aos hábitos alimentares desses animais, que são os únicos mamíferos aquáticos exclusivamente herbívoros, eles comem a vegetação das margens dos rios ou se alimentam de algas e de vegetação de mangue.

3- provoque os alunos e peça para que relacionem a notícia ao fenômeno das marés vermelhas e a um possível desequilíbrio ambiental causado pela ação humana.

4- questione o motivo pelo qual os animais morrem afogados. Isto reforçará o fato de que, apesar de serem animais aquáticos, os peixes-boi têm respiração pulmonar, assim como todos os mamíferos, inclusive aqueles que vivem na água.

5- finalmente, o assunto pode ser abordado pelo estudo das algas, causadoras involuntárias da morte de tantos peixes-boi.

Acidentes com lagartas (taturanas)

Nas regiões Sul e Sudeste do país, a partir de novembro/dezembro, dos ovos da mariposa Lonomia obliqua começam a eclodir. Deles saem as pequenas lagartas que constituem  um dos estágios do desenvolvimento destes animais. Durante cerca de três meses, essas lagartas se alimentam e sofrem mudas que permitem o seu crescimento até um tamanho de cerca de 7 a 8 cm de comprimento. A partir daí, elas estão prontas para se transformar em pupas, de onde, cerca de três meses depois surgirão as mariposas adultas.

 

Ciclo vida Lonomia

imagem no endereço eletrônico: http://www.intranet.rj.gov.br/exibe_pagina.asp?id=1614

 

 

 

 

 

Ao se aproximarem da fase de pupa, as lagartas descem da copa das árvores e permanecem agrupadas perto do solo.  Alimentam-se à noite e empupam no solo. Nessa ocasião, com os animais já bem desenvolvidos e reunidos em altura média sobre o tronco das árvores, os acidentes são mais prováveis.

Lagartas de Lonomia obliqua têm coloração marrom acinzentada/esverdeada e possuem espinhos ramificados (como pinheirinhos) e pontiagudos sobre o dorso (costas). Observe abaixo, o aspecto da lagarta.

ImagemAgora observe a fotografia abaixo e note que sobre o tronco de árvores cobertas por líquens, o animal se torna quase imperceptível. O que aumenta em muito perigo  de acidentes. A árvore da foto é um plátano, árvore exótica à qual os animais parecem ter se adaptado com facilidade. No Brasil, Lonomia também já foi observada em cedros, ipês, figueiras do mato, abacateiros, pessegueiros, pereiras, ameixeiras e figueiras, entre outras.

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Nos endereços que se  seguem disponibilizei três filmes de alguns segundos mostrando os animais em movimento.

http://youtu.be/0m6qo8B8I3s

http://youtu.be/LyD_q5usU80

http://youtu.be/q9PYmHSH1e4

Nos espinhos da lagarta há uma toxina cujo modo de atuação ainda não está bem esclarecido, mas que causa dor intensa, sensação de queimação, inchaço e vermelhidão locais.  Entre 24 e 72 horas após o acidente pode se instalar um quadro hemorrágico, com o aparecimento de hematomas (manchas roxas). Podem ocorrer sangramentos dos mais diversos órgãos abdominais; dos pulmões; de articulações e de mucosas, como a gengiva.

Entre 5 a 10% dos casos pode haver insuficiência renal aguda.

Os casos mais graves podem levar a óbito. 

Lonomia é a lagarta mais perigosa, no entanto, há outras que também podem causar muita dor, queimação e em algumas pessoas, podem causar complicações mais graves.

O animal abaixo é a lagarta de uma mariposa do gênero Podalia sp., também conhecida como bicho-cachorrinho ou lagarta-gatinho. As cerdas aparentemente macias escondem espinhos que liberam uma toxina extremamente irritante que produz grande dor e queimação locais. 
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Podalia-11

Aspecto da porção ventral da lagarta.

Além dessas que mencionei anteriormente, há uma grande variedade de lagartas que provocam queimação na pele e grande desconforto.

Como regra é importante orientar os alunos para que NUNCA toquem lagartas que possuem pelos ou espinhos, porque todas, em maior ou menor grau, provocam irritação local. Mesmo animais que possuem apenas pequenos tufos de cerdas são perigosos.

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Lagarta verde e vermelho-6

Na região norte do país, especialmente Acre e Pará, a lagarta do gênero  Premolis semirufa conhecida popularmente como pararama,  é a causa de acidentes  que afetam principalmente  os trabalhadores dos seringais, que por causa da profissão, mantêm repetidos contatos com a lagarta e suas cerdas que geralmente ficam sobre o tronco das seringueiras.  Por algum motivo ainda desconhecido, após repetidas queimaduras, a toxina  provoca artrose progressiva, conhecida na região como reumatismo dos seringueiros. Os trabalhadores afetados pela doença perdem os movimentos das mãos e não podem trabalhar.

Full-size image (45 K)     As imagens acima são do site: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0190962212006238  e as fotos de Ronaldo Monteiro Costa, MD. O raio-X mostra  as alterações ósseas provocadas pelo “reumatismo dos seringueiros”. Na imagem acima à esquerda, a lagarta pararama no tronco de uma seringueira.

Como agir em casos de acidentes com lagartas?

Segundo informações do Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina (http://www.cit.sc.gov.br/index.php?p=lagartas), devemos:

– lavar imediatamente a área afetada com água e sabão;

– usar compressas com gelo ou água gelada para auxiliar no alívio da dor;

– procurar o serviço médico mais próximo;

– se possível, levar o animal para identificação.

Depois de conversar com os alunos mostrando o perigo representado pelas “lagartas de fogo”, destaque que essas toxinas, verdadeiras armas químicas, são mecanismos de defesa dos animais para evitar a ação de predadores.

Muitas das substâncias produzidas pelas lagartas vêm sendo pesquisadas na tentativa de encontrar compostos que possam ser utilizados como medicamentos. Por exemplo, se a toxina de Lonomia provoca dificuldade de coagulação, substâncias ali presentes podem ter aplicação em doenças em que ocorre a  formação de trombos (coágulos), como a trombose.

É importante destacar também que o aumento do número de acidentes se deve a desequilíbrios ecológicos causados pelos seres humanos que, ao promoverem grandes desmatamentos afastam alguns dos predadores naturais das taturanas.

Biodiversidade –

Há milhares de anos os seres humanos fazem uso dos recursos naturais disponíveis em nosso planeta, no entanto, nos últimos séculos a exploração destes recursos e a ocupação do solo vem se acentuando, o resultado é a perda de parte da fabulosa biodiversidade existente na Terra.  Para que os alunos compreendam o significado do termo biodiversidade e como ela se relaciona aos diferentes ambientes, podemos realizar atividades simples, como por exemplo pedir que cada um desenhe em seu caderno uma folha. Depois podemos verificar e até expor rapidamente os desenhos produzidos.  Muito provavelmente ,a maioria dos desenhos terá a representação padrão usada na maioria dos livros didáticos, em que a folha tem um formato semelhante a essa da fotografia abaixo.

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                                      Esta por sinal  é uma folha de laranjeira.

Agora podemos questionar se em uma breve expedição pelo pátio da escola, ou em um terreno baldio, praça ou parque, será fácil encontrarmos folhas semelhantes (no formato) com essas que foram desenhadas. Se possível, leve os alunos a observar folhas presentes nas plantas do entorno da escola.. Peça que observem as folhas encontradas e as desenhem (ou fotografem. Foi fácil encontrar “folhas com formato de folhas”?

Provavelmente, foram encontradas muito mais folhas com formatos e cores diferentes., já que a diversidade de formas desses órgãos das plantas é muito grande. Veja alguns exemplos:

ImagemImagemImagemImagemImagemImagemImagemImagem

Agora que os alunos constataram a grande variedade de formas de limbos, podemos usar esse  fato para abordar o tema biodiversidade, enfatizando que a variedade de organismos existentes na Terra é muito grande e que não há nada parecido em nenhum outro planeta do sistema solar. Se desejar aprofundar a discussão sobre a diversidade das folhas, sugira aos alunos uma pesquisa sobre folhas modificadas como as folhas das plantas carnívoras ou sobre folhas que atuam na proteção das estruturas reprodutoras (flores) e na atração de insetos polinizadores, as brácteas, presentes em plantas como a poinsétia ou bico-de-papagaio –  Euphorbia pulcherrima; ou ainda  nas bougavíleas também conhecidas como primavera – Bougainvillea spectabilis, Bougainvillea glabra.

Questione os alunos sobre a importância das folhas para as plantas e para os seres vivos em geral. Na maioria das plantas, as folhas são os órgãos  responsáveis pela realização do fotossíntese, função pela qual em presença de luz solar,  a planta retira dióxido de carbono do ar atmosférico e promove uma reação com a água, gerando gás oxigênio (essencial à respiração da maioria dos organismos) e glicose, um composto que armazena muita energia e serve de alimento para as plantas e para os organismos que se alimentam delas.

Em muitas plantas, a glicose não utilizada durante a respiração celular fica armazenada na forma de amido em depósitos (os amiloplastos) que, conforme a espécie, podem estar localizados nas raízes, sementes, caules ou frutos.

Esse alimento que  a planta não vai utilizar imediatamente, pode ser a fonte de energia para animais, fungos e microrganismos, assim, áreas com grande vegetação também apresentam grande variedade de outros seres vivos.

O conjunto de flora e fauna de uma região constitui um bioma. No Brasil, temos alguns grandes biomas, todos caracterizados por grande biodiversidade. As inúmeras espécies que habitam nosso território ocupam: o cerrado, a caatinga, a amazônia, a mata atlântica, o pantanal e os campos – costeiros e sulinos (mapa IBAMA).

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Cada um dos biomas  tem vegetação característica que não raro mostra suas peculiaridades nas folhas das plantas que ali vivem.

Uma das regiões com maior biodiversidade do planeta, é Mata Atlântica que já estendeu da costa do Rio Grande do Sul às regiões costeiras do Piauí, e que hoje se encontra seriamente ameaçada pela ocupação urbana do solo.

Estudo feitos com as vegetações residuais da mata original identificaram mais de 20 mil espécies de plantas (sendo 8 mil endêmicas, isto é, exclusivas dessa formação). Essas plantas ocupam todos os extratos da mata, inclusive  muitas crescem sobre as grandes árvores sem prejudicá-las, são plantas epífitas que apenas se apoiam sobre elas. Fazem parte deste grupo, as orquídeas e bromélias, cujas folhas geralmente são bem grossas.

Bromélias-3 Orquídea - subida Caratubva

Na caatinga, muitas plantas perdem as folhas nas estações secas, outras possuem folhas pequenas e duras e há ainda aquelas que têm folhas transformadas em espinhos, o que reduz a perda de água.

ImagemImagemNo cerrado, predominam formações de campo, com gramíneas e árvores esparsas frequentemente com tronco e galhos retorcidos e de casca escura.

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A amazônia se caracteriza pelo grande volume de chuvas e temperaturas altas. Plantas com  lâminas foliares (limbo) muito grandes são frequentes.

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A vegetação dos campos sulinos se caracteriza por ervas e arbustos. As gramíneas são as espécies com maior número de indivíduos.

Pampas gaúchos - Cruz Alta a Santana do Livramento-6

Gigante voador

Continuando com o tema répteis do passado,  dia 22/03/2013   foi noticiada a reconstituição de um grande réptil alado que há 110 milhões de anos voava sobre as terras que hoje constituem o nordeste do Brasil. O animal, batizado de Tropeognathus mesembrinus tinha 8,5 m de envergadura (medida de uma ponta à outra das asas) e provavelmente se alimentava de peixes. Os fósseis foram encontrados na chapada do Araripe, região situada entre os estados do Ceará, Piauí e Pernambuco e assinalada no mapa (fonte do mapa: CPRM – Serviço Geológico do Brasil).

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A partir do dia 22/03/2013, uma réplica do animal em tamanho natural ficará exposta no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

A descoberta é uma boa oportunidade para despertar o interesse dos alunos pelas pesquisas paleontológicas e sobre como elas revelam um mundo tão distante no passado que se torna difícil compreender. Para tornar mais concreto o entendimento sobre o tamanho imenso desse animal, podemos compará-lo à ave com maior envergadura dos dias atuais: o albatroz, que mede 3,5 m de ponta a ponta das asas.

O pterossauro provavelmente fazia longos vôos planados (assim como faz o albatroz). Por mais surpreendente que pareça, esse pterossauro não é maior já conhecido, duas outras espécies (descobertas nos Estados Unidos e na China) chegavam a ter 11  e 10 metros, respectivamente, de envergadura.

pterossauro

O desenho acima é uma representação artística  do T. mesembrinus. As cores usadas na reconstituição desses e de outros animais do passado, frequentemente são somente hipótese, mas em alguns casos raros podem ser identificadas a partir dos vestígios fósseis. Não que esses vestígios tenham cores, mas porque alguns preservam marcas de bolsas microscópicas que armazenavam melanina. Em alguns fósseis vem sendo aplicado um  método que identifica os padrões de pigmentação a partir da análise dos metais existentes nos fósseis. A técnica é recente e envolve alta tecnologia e o uso de raio-x.

Podemos usar ilustrações como essa para que os alunos comparem esses répteis do passado com as aves e morcegos, os únicos vertebrados alados do presente. Pterossauros mais primitivos  tinham dentes afiados. As asas eram formadas pela expansão de uma membrana que terminava nas patas posteriores, diferente dos morcegos cujas asas são semelhantes a braços.

A busca por imagens na internet, usando a palavra pterossauro permitirá ter uma ideia da diversidade desses animais.

Sugestão de atividade

Para alunos de fundamental 1, uma atividade interessante é a confecção de modelos de papel que podem ser empregados em diversas atividades, inclusive em pequenas dramatizações.

Para montar o modelo serão necessários: tesoura, cartolina branca, colchetes pequenos (material de papelaria).

Faça uma cópia ampliada dos desenhos abaixo, recorte-os com os alunos. Peça que eles pintem os pterossauros. Auxilie-os a montar a cabeça dos animais.

molde pterossauro 1molde pterossauro

Dobre as peças ao meio, prenda uma na outra com colchetes inseridos nos pontos pretos das extremidades. Cole os suportes para os dedos como se fossem um anel e prenda (com cola ou fita adesiva) cada um deles por dentro das partes de cima e de baixo da cabeça do pterossauro.

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                                                                                       Cabeça montada.

Ao colocar os dedos indicador e polegar nas argolas coladas por dentro, o aluno poderá abrir e fechar a boca do pterossauro.

Se ainda restarem dúvidas, no endereço:

http://www.bgs.ac.uk/discoveringGeology/time/puppets/pterosaur.html há um pequeno filme que mostra como montar a cabeça do pterossauro.

Tropeçando em dinossauros

Menina descobre nova espécie de pterossauro

Reforçando a ideia de que a observação é algo a ser desenvolvido em nossos alunos, destacamos a notícia veiculada no dia de hoje: a menina Daisy Morris que hoje está com nove anos,  encontrou ossos fossilizados na  praia de Atherfield, que fica na Ilha de Wight, no sul do Reino Unido. A família da criança encaminhou os achados para a universidade  de Southampton que após quatro anos de estudos, concluiu que os ossos pertenciam a  uma nova espécie de pterossauro, batizada em homenagem à sua pequena descobridora de Vectidraco daisymorrisae.

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Imagem disponível em: http://www.ibtimes.co.uk/articles/448283/20130320/dinosaur-isle-wight-university-southampton-vectidraco-daisymorrisae.htm 

Conteúdos específicos sobre dinossauros geralmente não constam do currículo convencional, no entanto, por seu alto grau de interesse esse assunto pode ser abordado junto aos conteúdos referentes a répteis ou ainda quando da explicação dos mecanismos de formação dos fósseis.

Sobre esse assunto, há vasta literatura que pode auxiliar na compreensão do que foram esses animais que geram tanto interesse. Resumidamente podemos afirmar que eles eram répteis, e seu registro fóssil inicia há cerca de 200 milhões de anos. Os mais antigos fósseis de dinossauros foram encontrados na região hoje ocupada pela América do Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e na Argentina. Dinossauro é o nome genérico dado aos répteis terrestres, os animais alados são identificados como pterossauros. Houve também diversas espécies que habitavam os mares (ictiossauros e plessiossauros, entre outros).

Durante mais de 135 milhões de anos esse animais evoluíram e se diversificaram, o grande número de espécies já identificadas é somente uma amostra da biodiversidade total, pois fósseis se formam raramente e encontrá-los depende, muitas vezes, do acaso.

Os alunos têm questões curiosas sobre o tema, como por exemplo: como é possível saber a cor daqueles animais?

A resposta é simples: não dá para saber com exatidão, mas, tomando por exemplo répteis e outros animais que vivem nos dias atuais é possível imaginar como seriam os animais do passado.

Aproveitando esse tema, gostaria de sugerir algumas atividades que podem tornar o conteúdo mais lúdico.

Atividade 1

Formação de rochas sedimentares

Fundamentação: é nas rochas sedimentares que são encontrados os fósseis. Uma rocha sedimentar se forma pelo acúmulo sucessivo de camadas de sedimentos. Seres vivos aprisionados entre essas camadas podem sofrer transformações que levam à formação dos fósseis.

Material:

–  garrafa pet transparente da qual foi cortado o gargalo; areia; argila; pedinhas de tamanhos variados; água.

Oriente os alunos para que coloquem água na garrafa e depois adicionem quantidades variadas de areia, argila, pedrinhas e em seguida deixem a garrafa em repouso até o material se depositar no fundo. Peça que observem as diversas camadas que se formaram e desenhem suas observações. Peça que eles comparem suas observações com as ilustrações abaixo, onde se procurou mostrar o processo de fossilização. Enfatize que esse processo leva milhões de anos para acontecer.

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ilustração em http://dinoswebs.webs.com/fossilisation.htm

Atividade 2

Produção de molde

Material:

massa de “pão fóssil” (receita baixo); papel manteiga; modelo para fazer o fóssil (conchas, folhas rígidas, escamas de peixe, penas); tintas e pincéis.

Cada aluno recebe um pedaço de papel manteiga e uma porção de massa para fazer uma bolinha do tamanho de uma bola de ping-pong. Oriente que eles pressionem a bolinha de massa sobre o papel manteiga, fazendo um círculo achatado. Em seguida peça que pressionem sobre a massa o material que servirá de molde. Remover como cuidado esse material. Observar o molde que se formou. Procurar relacionar a atividade ao processo natural de formação de fósseis do tipo molde. Deixar a massa secar e, se desejar, orientar a pintura  do  molde produzido.

Receita para massa:

1 copo de amido de milho; 2 copos de bicarbonato de sódio; 1 1/4 copo de água fria.

Misture todos os ingredientes e leve ao fogo médio mexendo sempre por 4 minutos aproximadamente, até a mistura engrossar. Tire do fogo e coloque a massa sobre uma superfície lisa. Cubra com um pano úmido até amornar. Sove um pouco como massa de pão. Modele as esferas. Guarde em refrigerador em recipiente hermético ou em saco plástico, até o momento do uso.

Observar para descobrir o mundo

Observação. Acho que essa é a palavra chave quando desejamos compreender o mundo natural. Todas as perguntas que nos fazemos são precedidas de observações. Quanto maior a capacidade de observar atentamente,  maior a habilidade em fazer perguntas  e procurar as resposta a elas.

Desenvolver a capacidade de observação é uma das mais importantes habilidades a serem desenvolvidas pela escola. Quantas vezes, em aulas de campo, ouvi a afirmação: “Mas não tem nada aqui, professora!”

Nossos alunos têm o hábito do imediatismo. Tudo deve estar pronto para merecer uma rápida olhadela, como se estivessem em uma feira, onde nada atrai para um olhar mais atento.

No entanto, como é possível afirmar  – não há nada aqui – quando à frente temos um bosque ou um campo, com toda sua imensa biodiversidade. É preciso treinar o olhar, buscar as maravilhas que podem estar escondidas sob uma pedra, no tronco de uma árvore ou bem à nossa frente. Um simples dente-de-leão, também conhecida como vovô careca ou pai careca (Taraxacum) pode ser o motivo para desencadear questionamentos e encantamentos.

Estrutura da atividade:

Materiais:  fotografias e cadernos de desenho.

Se a escola estiver situada em uma área próxima a terreno baldio ou campo uma saída com a turma na época em que essas plantas estão em floração é o ideal. Não havendo esse recurso, fotografias podem ajudar no desenvolvimento da atividade.

Em campo peça aos alunos para que eles localizem as plantas objeto da atividade. Mostre uma das flores compostas dessa planta, que é constituída por centenas de pequeninas flores.

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Colha com cuidado um ramo já com os frutos secos que contêm as sementes. Destaque que cada fruto se originou de uma das pequenas flores observadas anteriormente. Chame a atenção para a maneira pela qual eles estão organizados, formando uma estrutura que lembra um “pompom”. Peça que os alunos soprem esse “pompom”.

Peça que cada um deles consiga uma dessas estruturas que foram carregadas pelo vento e a observe atentamente. Peça que a

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descrevam, desenhem e identifiquem quem é o fruto seco (contém a semente). Quando o fruto, com seu “para-quedas” cai, qual é a extremidade que chega ao solo primeiro?

Explique que o “para-quedas” é uma estrutura que recebe o nome de aquênio e que a função de estruturas deste tipo é facilitar a disseminação das sementes, propagando novos indivíduos pelo ambiente.

Peça que eles coletem outros frutos ou sementes com forma de dispersão alada. Peça que tentem identificar, em outras plantas, diferentes mecanismos de dispersão, como, os mecanismos “explosivos” em Impatiens ou as sementes que ficam aderidas aos pelos de outros animais e até de nossas roupas (carrapicho, pega-pega). Cocos são dispersos pela água.