Temas atuais que surgem nos noticiários podem ser o ponto de partida de aulas diferentes e interessantes. Por exemplo:

Em abril, pouco depois do atentado de Boston, os noticiários informaram que uma correspondência contendo potente veneno havia sido endereçada ao presidente dos Estados Unidos.

O veneno?

Ricina.

A ricina é uma toxina, encontrada em uma planta muito comum em nosso país, a mamoneira (Ricinus communis), também conhecida como rícino, carrapateira, enxerida e palma-de-cristo.

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Muitas plantas produzem substâncias tóxicas, mas a ricina parece ser a mais potente toxina vegetal. Ao ser inalada, ingerida ou injetada, a ricina entra nas células e se liga aos ribossomos, impedindo a produção de proteínas e levando a célula à morte. Os sintomas da intoxicação dependem da forma pela qual a ricina entrou no organismo, mas, sempre demoram horas para aparecer e geralmente incluem diarreia, taquicardia, náuseas, convulsões. Dependendo da via de contaminação e da dose recebida, pode haver comprometimento das funções pulmonares com dificuldade respiratória que pode levar à morte, entre 36 e 72 horas após a  intoxicação.

Na planta, a ricina é sintetizada no endosperma da semente da mamona. Por meio de processos relativamente simples, ela pode ser purificada a partir dos resíduos  da fabricação do óleo de rícino. Quantidades muito pequenas, menos de 1,8 microgramas (massa de alguns grãos de sal) são letais para um homem adulto.

A intoxicação, também pode acontecer acidentalmente, pela ingestão de sementes de mamona. Mas seriam necessárias a polpa de 8 grãos ou 15 a 20 sementes inteiras para trazer risco a uma criança, por isso, esse tipo de acidente é muito raro.

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Por causa de seu potencial para causar danos ao organismo humano e de outros animais, a ricina já foi usada em atividades de espionagem que mais parecem saídas de um filme: no ano de 1978, um jornalista búlgaro que vivia em Londres foi  atacado por um homem com um guarda-chuva de onde foi disparada uma pelota de ricina  que se alojou sob a pele do jornalista. Poucos dias depois o jornalista morreu e durante a autópsia, os médicos encontraram a pelota contendo o veneno.

Curiosamente, o óleo de rícino utilizado desde a Antiguidade (há registros de seu uso no antigo Egito) como medicamento, e extraído das sementes da mamona,  não é tóxico, porque a ricina não é lipossolúvel (solúvel em óleo). A ingestão de óleo de rícino tem efeito laxante e produz o esvaziamento intestinal poucas horas após sua ingestão. Doses excessivas produzem náusea, vômito, diarreia.

No entanto,  muito mais importante do que a ricina, é o óleo que a mamoneira produz. A área da pesquisa que se ocupa de identificar aplicações para esse óleo e seus derivados é a  ricinoquímica, (similar à petroquímica).  Assim como o petróleo, o óleo de mamona é usado na produção de uma imensa gama de compostos, como por exemplo:  biodiesel,  lubrificantes e fluidos hidráulicos,  resinas e borrachas,  cosméticos,  fungicidas,  impermeabilizantes de tecidos,  tintas,  perfumes e aromas sintéticos. Estes e muitos outros produtos são usados nas indústrias naval, eletro-eletrônica, de construção civil, de refrigeração, de cosméticos e de produtos médicos, veterinários e odontológicos.

Cicuta

Mas a produção de compostos tóxicos para os seres humanos não é exclusividade da mamoneira, há outras plantas que também produzem venenos, como a cicuta, produzida pelo Conium maculatum, uma espécie nativa da Europa que foi introduzida em muitas outras partes do mundo, no entanto, no Brasil sua ocorrência é incomum (no mapa as regiões em que a planta já foi identificada).

Conium maculatum, Poison Hemlock

ilustrações são do site:  http://www.discoverlife.org/mp/20q?search=Conium+maculatum&guide=Wildflowers&cl=US/CA/Monterey/Hastings_Reserve

  A planta produz diversos compostos, e o mais conhecido destes produtos químicos é um alcalóide, a conina, que atua sobre o sistema nervoso central provocando paralisia gradual dos músculos, até haver parada cardio-respiratória.  Para um adulto, mascar 6 a 8 folhas da planta pode ser fatal.  Animais, principalmente o gado também podem morrer ao consumir o Conium.

Na Grécia antiga, a cicuta era usada para envenenar presos,  a mais famosa vítima da cicuta foi  filósofo Sócrates, cuja morte foi descrita por Platão.

Estricnina

A planta , também conhecida como noz-vómica, noz-vomitória ou fava-de-santo-inácio é uma árvore de porte médio, nativa da Índia e sudeste da Ásia. Suas flores e sementes armazenam, entre outros compostos, dois poderosos alcaloides, a estricnina e a brucina. A estricnina provoca fortes convulsões, aumento da pressão arterial e paralisia dos nervos periféricos. A brucina atua principalmente sobre os nervos periféricos, paralisando-os. No passado, a estricnina   foi usada como medicamento, mas o risco de envenenamento é muito alto e atualmente não há aplicação na medicina tradicional para esse composto, no entanto, ele é empregado na medicina homeopática.

Strychnos nux-vomica

ilustração em

http://www.botanicalgarden.ubc.ca

Professor: ao apresentar o tema aproveite para discutir a afirmação que comumente costumamos ouvir: “se é natural não faz mal”. Com os exemplos anteriores fica bem fácil perceber o grande e grave erro contido na frase. Os alunos podem ser estimulados a pesquisar outras substâncias naturais que são tóxicas aos seres humanos, como por exemplo, a toxina botulínica, ou os alcaloides presentes em plantas como: comigo-ninguém-pode e tantas outras. Se a turma for de ensino médio, a ação da ricina sobre os ribossomos pode ser um modo de destacar a importância do papel dessas organelas e relembrar o processo de síntese proteica.

No próximo post, pretendo comentar alguns venenos produzidos por animais.