Não é raro ouvirmos  pessoas afirmarem que as cigarras estouram (ou explodem) de tanto cantar. A informação parece estranha, mas, mesmo assim, muitos acreditam nela. Então, podemos nos perguntar:  porque as pessoas fariam tal afirmativa ou acreditariam nela?

Frequentemente, observações do mundo natural geram curiosidade e em consequência, tentativas de explicação. Em muitas regiões do país podemos encontrar, aderidas às árvores, estruturas como a que vemos abaixo:

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Observe-a atentamente. Perceba que nas costas do que parece ser um inseto há uma fenda, o que dá a impressão de que o animal  rompeu (rasgou). Terá estourado?

Para entender melhor o que acontece sugerimos o filme que se encontra disponível em http://www.youtube.com/watch?v=tjLiWy2nT7U. Produzido pela BBC de Londres a narrativa é em inglês. Para facilitar a compreensão, fizemos um  pequeno roteiro explicativo com informações adicionais que podem enriquecer a explicação do fenômeno visualizado no filme.

                                                          O surpreendente ciclo de vida das cigarras

O narrador (Sir David Attenborough) inicia contando que certas espécies de cigarras que vivem no leste dos Estados Unidos permanecem 17 anos embaixo da terra, alimentando-se da seiva que extraem das raízes das árvores do local. Após esse período,  em poucos dias, toda uma população de cigarras (na forma de ninfas) sai da terra (aos 0:11 segundos do filme).  São bilhões de indivíduos (estima-se que hajam cerca de 370 ninfas por metro quadrado, em uma grande área que mede quase 100.000 quilômetros quadrados). As ninfas sobem pelos troncos das árvores (aos 0:40 segundos do filme) e se transformam nos animais adultos (aos 1:02 minutos do filme). Para isso, o esqueleto externo (exoesqueleto)  se rompe na região das costas e do interior dele sai o  adulto jovem, cujas asas se expandem rapidamente (o filme  está acelerado, mas em tempo real o processo também é rápido). Em pouco tempo os troncos das árvores e o chão estão cobertos de exoesqueletos vazios. O processo de troca do exoesqueleto recebe o nome de ecdise. Alguns dias depois, com o exoesqueleto já completamente endurecido, os machos produzem um canto intenso, quase ensurdecedor, que pode chegar a mais de 100 decibels. O som é característico para as diferentes espécies e é produzido por um par de  membranas vibratórias  existentes na base do abdômen (aos 2:28 minutos).  O canto dos machos tem por objetivo atrair as fêmeas, que  respondem com pequenos sons semelhantes a estalos (aos 2:46 minutos). Os machos vão em busca desse som. Aos 2:48 minutos, Sir David Attenborough mostra que o som produzido pelas fêmeas é semelhante a um estalo de dedos e para comprovar isso, estala os dedos perto de um macho que passa a se mover em busca da fonte do ruído, até chegar ao apresentador e finalmente a seus dedos. Quando macho e fêmea se encontram, ocorre o acasalamento (aos 4:15 minutos). Finalmente, o narrador explica que pouco se sabe sobre os mecanismos que levam as cigarras a sair simultaneamente do solo após terem se passado 17 anos de sua existência subterrânea.

Entre a imagem acima e a foto abaixo, há muita diferença no aspecto do inseto. Isso se deve ao fato de que as asas e o esqueleto ainda precisam endurecem para que o animal finalmente chegue ao estágio adulto.

Cigarra adulta -

Cigarra adulta de uma espécie encontrada no Brasil.

Depois do acasalamento, as fêmeas fazem de 50 a 60 fendas  na casca de galhos tenros e ali realizam a postura de seus ovos. Cada fêmea, em sua curta existência de animal adulto, coloca cerca de 600 ovos. Em algumas semanas, as pequenas ninfas eclodem e buscam refúgio sob  o solo (algumas se enterram quase 30 cm), onde ao longo de 17 anos  (se forem da espécie americana vista no filme), se alimentam de seiva das plantas e sofrem mudas, até atingir o último estágio de  ninfa e sair para a superfície, dando início a outra “invasão barulhenta”.

O ciclo de vida das cigarras pode ser resumido em: ovo –> ninfa –> adulto, por isso, dizemos que esses insetos sofrem metamorfose incompleta, isto é, são hemimetábolos.

Ciclo de vida das cigarras - ilustração de Treasure Bay & Judith Hunt.

Ciclo de vida das cigarras – ilustração de Treasure Bay & Judith Hunt.

Ainda que o mecanismo de eclosão simultânea seja pouco conhecido (parece ter bases genéticas, sendo desencadeado pela ação de um determinado gene), os pesquisadores acreditam que o aparecimento dessa imensa quantidade de animais ao mesmo tempo seja uma estratégia de sobrevivência, pois assim,  a maioria dos insetos sobrevive à predação. Os principais predadores das cigarras são aves e certas espécies de vespas.  Essas vespas têm grande porte (chegam a 5 cm) e são conhecidas como cicada killer wasps (vespas assassinas de cigarras). A vespa paralisa a cigarra com o veneno inoculado por seu ferrão, e carrega-a  para sua toca. Lá deposita um ovo sobre ela. Um ou dois dias depois, a larva eclode e começa a se alimentar da cigarra.

As cigarras que vivem em território brasileiro não cumprem um ciclo de vida tão longo, elas geralmente completam seu desenvolvimento entre 1 ou 2 anos e não saem simultaneamente de seus abrigos sob a terra. Algumas espécies causam prejuízos à lavoura, especialmente de café. As ninfas escavam as raízes com suas fortes patas anteriores (observe na fotografia que mostra o exoesqueleto vazio), causando danos às plantas.

O incrível ciclo de vida das cigarras tem sido uma fonte de fascínio desde tempos antigos, por exemplo, os chineses consideravam  que estes insetos eram  poderosos símbolos de renascimento.

Professor: aproveite para valorizar o conhecimento popular como algo que geralmente é a tentativa de explicar fenômenos observados na natureza. Apesar de  a explicação popular frequentemente não corresponder à explicação dada pelos pesquisadores, nem por isso, ela deixa de ter valor como patrimônio cultural. Questione se os alunos conhecem outras crenças relacionadas ás cigarras, por exemplo, frequentemente as pessoas vêem em seu canto um indício de chuva.

Poucos insetos fazem metamorfose incompleta e o exemplo das cigarras (com seu incrível ciclo de vida) pode tornar o tema mais atraente. Além disso, ele pode ser usado para reforçar a necessidade das mudas ou ecdises. Questione os alunos se eles já encontraram essas “casquinhas” de cigarras aderidas às árvores e o que imaginaram que fosse. Estimule-os a observar atentamente as fotografias e o filme, que pode (e deve) ser pausado diversas vezes para destacar os principais acontecimentos  da vida das cigarras ali apresentados.