Essa é uma das definições que o minidicionário Houaiss dá para a palavra chupim quando usada em expressões como: “tal pessoa é  oportunista, parece um chupim”.

Mas essa não é a única definição para a palavra. Chupim também é um dos nomes populares de uma ave de penas escuras, cujo nome científico é Molothrus bonariensis e que pode ser encontrada em quase toda América do Sul.

Molothrus bonariensis, conhecido entre vários outros nomes, como chupim, xeréu, vira-bosta

Molothrus bonariensis, conhecido entre vários outros nomes, como chupim, xeréu ou vira-bosta

Os chupins machos parecem negros, mas quando a luz incide sobre suas penas, é possível observar  uma coloração azul metálica. As fêmeas são mais amarronzadas.

Chupim fêmea.

Chupim fêmea.

Essas aves se alimentam de insetos, aranhas e grãos. Costumam ser vistas em bandos, buscando alimento nos gramados (especialmente após o corte da grama).  Seus ovos são brancos ou cinza claro e podem ter manchas acastanhadas.

Mas, qual a relação entre a ave da descrição e imagens acima e  o uso pejorativo que se faz de seu nome popular?

O chupim é considerado um animal oportunista porque não constrói ninhos e a fêmea não choca seus ovos. Esses animais mantêm com diversas outras espécies de aves uma interação denominada esclavagismo. Isto é, os chupins se aproveitam do trabalho das outras aves para o desenvolvimento de seus filhotes.

A fêmea coloca seus ovos em ninhos de outras aves para que ali eles sejam chocados. Parece que a fêmea coloca apenas um ovo em cada ninho, no entanto, pesquisadores já encontraram até cinco ovos de chupim em um mesmo ninho (cada um deles colocado por uma fêmea).

Uma das aves mais visadas pelos chupins, são os tico-ticos, no entanto, muitas outras espécies podem ser  “vítimas” da ave oportunista,  entre elas, as corruíras (Troglodytes sp).

As corruíras são muito menores do que os chupins, comem grande variedade de insetos e aranhas, além de conchas de caracol que servem provavelmente para fornecer cálcio e areia para ajudar a digestão. Em solo, se movem  por meio de saltos rápidos.

Corruíra - Trglodites sp. Foto em wikimedia commons - Dario Sanches

Corruíra – Troglodites sp.
Foto em wikimedia commons – Dario Sanches

Os ninhos são construídos com amontoados de galhos escondidos em cavidades as mais variadas: fendas nas árvores, antigos ninhos de pica-paus e outras, existentes em materiais produzidos pelos seres humanos, como caixas, latas e em objetos diversos descartados no ambiente. Os ninhos são forrados com grama, penas, pelos e uma grande variedade de materiais como cordas, fios, barbantes, plásticos…

A fêmea do chupim coloca um ovo nesse ninho e a fêmea da corruíra (ou outra espécie que tenha tido seu ninho invadido) choca esse ovo, junto com os seus próprios ovos.

Geralmente o filhote do chupim nasce antes dos demais e recebe toda atenção e cuidados da fêmea. Não raramente, ele empurra os outros filhotes para fora do ninho, eliminando a concorrência e, incrivelmente, depois de bem grandinho,  ainda exige muita atenção da “mãe adotiva”.

Pudemos flagrar um breve momento dessa relação. O vídeo está disponível em  http://youtu.be/6qadJP9Pwsk. Nele,  o chupim filhote, faz todo um gestual com as asas e o corpo  e produz bastante barulho (o áudio do vídeo não ficou bom). Então, surge a pequena fêmea que alimenta o grandão. Em seguida, a fêmea voa e o filhotão esfomeado segue atrás. São poucos segundos, mas revelam bastante dessa estranha interação. Durante vários dias ouvíamos o pio exigente do chupim e víamos a pequena corruíra tentando atendê-lo.

Aguarda a "mãe-adotiva" para alimentá-lo.

Filhote de chupim aguarda a “mãe-adotiva” (corruíra) para alimentá-lo.

Aqui o bichinho já está agitado exigindo comida.

Aqui o bichinho já está agitado exigindo comida.

Uma pergunta que podemos  fazer é: porque essas aves (tico-ticos, corruíras, sanhaços e outras) aceitam esses ovos “invasores” em seus ninhos?

Uma resposta foi tentada  pelos índios guaranis:  segundo a tradição indígena, os gaviões e falcões lutavam com outras aves, entre elas os urubus, para decidir quem teria a supremacia dos céus. Vencida a batalha, houve muito vandalismo e  depredações, quando a casa do chupim foi queimada. A ave, ainda que muito chamuscada,  escapou da morte, mas sua plumagem ficou negra. Os chupins, com medo de novos incêndios, nunca mais fizeram ninhos (dessa maneira, os índios explicavam a cor das aves e o fato de não construírem ninhos). (Frisch, J.D & Frisch, C. D.  Aves brasileiras e plantas que as atraem. São Paulo: Dalgas Ecoltec. 3a.ed.p. 346).

Para os pesquisadores a resposta é menos poética. Estudos recentes indicam que se o ovo do chupim é retirado do ninho, esses ninhos correm grande risco de ser destruídos pelos chupins, parece que a  depredação narrada na lenda guarani é, de fato, uma ação dos chupins. Assim, manter ovo no ninho, com todo desgaste que isso traz para a ave que irá cuidar dele, parece ser uma estratégia para evitar um mal maior.

Professor: sugerimos o vídeo para exemplificar a interação ecológica conhecida como esclavagismo. O vídeo pode ensejar discussões das mais diversas naturezas e talvez possa ser trabalhado com professores de outras áreas, levantando questões como ética, oportunismo. A explicação dada pelos indígenas também é um rico material para reforçar a importância da observação e das tradições populares. Os três endereços eletrônicos abaixo são fonte de informações sobre as aves em geral (os dois últimos são em inglês).

http://www.wikiaves.com.br/

http://avibase.bsc-eoc.org/avibase.jsp

http://www.birds.cornell.edu/Page.aspx?pid=1478