Os indígenas da amazônia, conhecedores das características de certo peixe encontrado nos rios da região, deram a ele o nome de poraquê, termo cujo significado aproximado é: “aquele que faz dormir” ou “aquele que entorpece”. Posteriormente, esses  peixes  receberam o nome científico de Electrophorus electricus.

Mas qual será a característica que levou os povos da amazônia a dar tal nome ao peixe?

O poraquê é  capaz de gerar potentes descargas elétricas que podem atordoar outros animais, inclusive os seres humanos e eventualmente causar-lhes a morte.

Essa característica também é a origem do nome científico do animal.

Os poraquês chegam a medir dois metros de comprimento e podem apresentar cerca 30 kg de massa. Seu corpo de  formato  cilíndrico-alongado  não é recoberto por escamas e por  isso, o animal também é conhecido em algumas regiões do mundo como enguia elétrica (electric  eel).

Poraquê

Poraquê (Electrophorus electricus)

Além da bacia amazônica, eles também ocorrem na bacia do Orinoco  e podem ser  encontrados no Brasil, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Os poraquês preferem águas calmas e fundos lodosos onde encontram alimento: pequenos peixes e mamíferos que são  capturados com auxílio das descargas elétricas emitidas por seus corpos. Essa eletricidade também é usada para afugentar predadores.

O poraquê é o mais potente dos peixes elétricos, mas não o único, outras espécies também são capazes de emitir descargas elétricas como por exemplo:  os peixes-gato (catfish) elétricos (Malapterurus electricus) e os pequenos  peixes-elefante (Gnathonemus petersii), que medem no máximo 35 cm de comprimento. Assim como o poraquê, esses peixes são de água doce.

Peixe-gato elétrico Malapterurus electricus

Peixe-gato elétrico (Malapterurus electricus) que habita o continente africano e pode medir mais de um metro e vinte centímetros de comprimento.

Peixe elefante - Gnathonemus petersii

Peixe elefante – Gnathonemus petersii

Nos oceanos, os peixes elétricos mais conhecidos são os representantes do gênero Astroscopus (sp), que vivem sobre o leito arenoso do fundo, e as arraias (ou raias)  torpedo (Torpedo marmorata), que, em busca de alimento, costumam se mover junto ao fundo.

Raia (ou arraia)  torpedo - Torpedo marmorata

Raia (ou arraia) torpedo – Torpedo marmorata

Mas, de que modo esses animais são capazes de produzir a eletricidade que se propaga na água ao redor de seus corpos? E como eles mesmos não sentem essa descarga elétrica?

A eletricidade é produzida em órgãos especiais, os órgãos elétricos,  formados por um conjunto de células musculares modificadas, as eletroplacas, que se organizam em série, como as pilhas em uma lanterna. Quando estimuladas, sob comando do sistema nervoso central, cada uma das eletroplacas produz uma descarga elétrica.

Localização dos órgãos elétricos em alguns dos peixes citados no texto. A seta indica o sentido da corrente. (fonte http://www.ghoselab.cmrr.umn.edu/Classes/3102/Aidley-The%20Electric%20Organs%20of%20Fishes.pdf)

Localização dos órgãos elétricos em alguns dos peixes citados no texto. A seta indica o sentido da corrente. (desenhos em: http://www.ghoselab.cmrr.umn.edu/Classes/3102/Aidley-The%20Electric%20Organs%20of%20Fishes.pdf)

O poraquê chega a ter 6000 eletroplacas e quando todas as descargas individuais se somam,  produzem uma corrente elétrica que chega a 600 volts (V). Para efeitos de comparação lembre que a corrente elétrica que chega a nossas casas tem  tensão de 220 V ou 110 V. Então, o choque produzido pelo poraquê pode ser entre 3 e  6 vezes mais potente do que aquele sentido quando  acidentalmente recebemos uma descarga de 220 ou 110 V. Os outros peixes elétricos produzem descargas mais fracas.

Mas os peixes elétricos não são afetados pela descarga elétrica que produzem porque as eletroplacas estão isoladas das outras células ao redor delas e a  pele os protege da eletricidade que flui na água ao redor de seus corpos.

Os exemplos citados podem ser usados para ampliar os conhecimentos dos alunos sobre a grande diversidade de estratégias de predação e defesa encontradas entre os seres vivos. Para o ensino médio é interessante fazer a correlação entre a eletricidade gerada por esses peixes e o fato dos impulsos nervosos serem de natureza elétrica.