No início de setembro (2013) a mídia noticiou o fato de um carro ter “derretido” por causa do calor direcionado por um prédio espelhado.

Notícia tão incomum causou espanto e quem leu sobre ela, provavelmente, se perguntou de que modo um acontecimento como esse seria possível.

Antes de buscar uma explicação para esse fenômeno ocorrido no século XXI, vamos lembrar um outro fato que, segundo contam alguns, teria se passado há mais de 2200 anos.  No século II de nossa era, o escritor Luciano de Samósata (125-180) narrou que entre 214 e 212 a.C, durante o cerco realizado pelos romanos à cidade grega de Siracusa, Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C) teria destruído os navios inimigos com fogo. Séculos depois, o matemático grego, Anthemius de Tralles (474-558), escreveu que os navios teriam queimado pelo uso de um aparelho que ele denominou de “raio de  calor de Arquimedes”. Esse aparelho, segundo alguns poderia ter sido formado por placas de bronze ou cobre polido que atuariam como um espelho, concentrando os raios solares sobre os navios e provocando seu incêndio.

Segundo narrativa do século II, Arquimedes teria usado espelhos para incendiar as velas de navios inimigos que se aproximavam de Siracusa.

Segundo narrativa do século II, Arquimedes teria usado espelhos para incendiar as velas de navios inimigos que se aproximavam de Siracusa. (ilustração em http://www.energy-without-carbon.org/SolarThermalCST)

A existência desse aparelho vem sendo questionada desde o Renascimento e as  tentativas de recriá-lo não tiveram êxito. Nenhum equipamento foi capaz de incendiar um navio como aqueles usados pelos romanos. Por isso, acredita-se que essa narrativa seja uma lenda. Segundo pesquisadores, no máximo, o intenso feixe luminoso dirigido sobre os navios poderia ter desorientado a tripulação.

Mas, qual a relação do suposto aparelho de Arquimedes com o carro derretido pelo edifício?

O edifício em questão tem um formato curvilíneo, e é recoberto por grande número de placas de vidro  que agem como se fossem espelhos.  Os reflexos produzidos por elas convergem para um determinado ponto, o foco.

Os raios luminosos são refletidos pelo espelho e convergem para um mesmo ponto, o foco.

Os raios luminosos são refletidos pelo espelho e convergem para um mesmo ponto, o foco (F).

Esse feixe concentrado de luz em uma pequena área provoca  aquecimento local. Não esqueça que o espectro luminoso é formado pela luz visível e por outras radiações não visíveis, entre elas, a radiação infravermelha que pode ser sentida na forma de calor.

É bem fácil perceber esse fato quando usamos lentes convergentes como as de uma lupa, por exemplo. A radiação atravessa a lente e se concentra em um ponto, o foco. Ali, aluz é mais intensa e a temperatura é mais alta.

Lente convergente
Ao atravessar a lente a radiação se concentra sobre um ponto.

Ao atravessar a lente a radiação se concentra sobre um ponto.

A radiação concentrada aumenta a temperatura no local, podendo inclusive provocar a combustão de materiais como papel ou folhas secas.

A radiação concentrada aumenta a temperatura no local, podendo inclusive provocar a combustão de materiais como papel ou folhas secas.

O carro mencionado no noticiário, estava estacionado exatamente no ponto correspondente ao foco da radiação refletida pelos vidros.  Um termômetro colocado no local apontou que a temperatura chegou a mais de 91 graus Celsius, e foi capaz de amolecer os plásticos que faziam parte da estrutura do carro.

Partes plásticas do carro amoleceram com o calor produzido pelo reflexo do edifício.

Partes plásticas do carro amoleceram com o calor produzido pelo reflexo do edifício. Imagem em http://www.lbc.co.uk

O espelho retrovisor mudou de forma e ficou queimado.

O espelho retrovisor mudou de forma e ficou queimado.

 

Professor: Noticiários costumam ser importante fonte de informações que podem ser aproveitadas para contextualizar os conteúdos desenvolvidos em sala de aula. Ao aproveitarmos os “ganchos” que eles nos oferecem conseguimos aproximar os assuntos abordados em sala da realidade cotidiana. O uso de lentes de aumento (lupas) para queimar folhas secas ou papel é bem simples, mas é experimento que deve ser feito com a supervisão de adultos. É importante orientar para que os alunos desviem os olhos do (foco) ponto mais brilhante evitando a possibilidade de alguma lesão nos olhos. É fundamental também um trabalho de conscientização para o risco de incêndios. Vale reforçar o ditado popular que afirma que “com fogo não se brinca”!!