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Aquele tubarão é manso ?

Por estranho que possa parecer, ouvimos esta pergunta de alguém que realmente ficou com essa impressão. Mas porque alguém perguntaria se um tubarão é manso?

A resposta está no incrível convívio pacífico entre tubarões e seres humanos observado nas águas que banham o arquipélago de Fernando de Noronha.

O arquipélago é formado por uma ilha maior e várias ilhotas menores,  distantes cerca de 360 km da costa do Rio Grande do Norte, no entanto, o arquipélago pertence ao estado de Pernambuco. As ilhas são a parte visível de uma cadeia submarina de montanhas formadas por intensa atividade vulcânica há milhões de anos.

Lugar maravilhoso, de natureza bastante preservada, as ilhas e o mar que as cercam revelam muitas surpresas e nos mostram como pouco sabemos sobre a interação entre as diferentes espécies que convivem em determinado ambiente.

Caminhando pela praia da baía de Sueste fomos surpreendidos com a presença de tubarões. Mas não uma barbatana avistada lá longe no mar, não. Os tubarões estavam literalmente junto de nossos pés. Trazidos pelas ondas da arrebentação. Nadavam em meio à areia em busca de alimento. Mas também não eram tubarões adultos e sim filhotes de tubarão limão que se aproximam da arrebentação em busca de alimento.

Os filhotes de tubarão limão se desenvolvem dentro do corpo da fêmea e quando nascem já estão completamente formados.

Tubarão limão (Negaprion brevirostris)

Tubarão limão (Negaprion brevirostris)

Tubarão limão próximo aos banhistas

Tubarão limão próximo aos banhistas

Os filhotes de  tubarão-limão têm o hábito de permanecer durante bastante tempo nas regiões em que nasceram (áreas conhecidas como berçários). Por isso, sua presença nas praias de Fernando de Noronha.

Quando adultos chegam a 3 metros de comprimento e nadam em águas profundas onde se alimentam de crustáceos e animais bentônicos, isto é, animais que vivem sobre o leito do oceano.

 

Foi a visão de um animal adulto, nadando relativamente perto de um turista que levou à pergunta: aquele tubarão é manso?

 

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Tubarão adulto perto da praia do Leão em Fernando de Noronha.

Um animal selvagem nunca é manso, como a maioria dos tubarões, o limão possui numerosos dentes arrumados em fileiras nas arcadas superior e inferior e poderia causar ferimentos graves aos seres humanos. No entanto, isso não acontece porque  os tubarões-limão preferem outros alimentos que  as águas ao redor do arquipélago oferecem  em abundância, por isso, os animais não nos atacam.

Distribuição geográfica do tubarão limão.

Imagem em http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/

 

Dentes de tubarão.

Dentes de tubarão.

Fernando de Noronha está há mais de 500 km da costa de Pernambuco e é lá, especialmente em Recife, que têm acontecido o maior número de ataques de tubarão registrados no Brasil. O último deles, aconteceu em 2013 e foi fatal. Em vinte anos, foram 57 acontecimentos desse tipo, com 22 mortes. Para evitar tragédias como essas a orla da praia de Boa Viagem em Recife tem muitos avisos alertando para o perigo.

Em Recife, os ataques provavelmente são produzidos por tubarões-touro (duas espécies do gênero Carcharias) e por tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier ), ambos muito comuns naquelas águas e com comportamento agressivo. Podem atacar os seres humanos ao confundi-los com outras presas. O tubarão-tigre em particular, é pouquíssimo seletivo, come praticamente qualquer coisa que flutue e com seus quase 6 metros de comprimento pode matar facilmente.

O número de ataques em Recife aumentou muito e os pesquisadores atribuem isso a mudanças no meio ambiente costeiro causadas pela construção e movimento de navios no porto de Suape.

Para construir o porto, estuários foram dragados e  docas  foram construídas, projetando-se para o oceano. Isso parece ter sido um problema para os tubarões touro, que têm grande parte do seu ciclo de vida dependente de estuários costeiros. Acredita-se que as ações sobre o ambiente necessárias à construção de Suape interferiram nos hábitos de caça destes animais.

Já os tubarões tigre são migratórios e costumam seguir os navios em busca de alimento (lixo lançado às águas). Os navios que chegam  ao porto podem ser a causa do aumento na população destes animais.

As pesquisas continuam a ser feitas e ainda não há resultados absolutamente conclusivos sobre a causa do aumento de ataques em Recife.

Praia da Boa Viagem - Recife

Praia da Boa Viagem – Recife

Aviso espalhado por toda orla da Boa Viagem.

Aviso espalhado por toda orla da Boa Viagem.

 

 

 

 

 

 

 

Professor: Ainda que haja controvérsia sobre o motivo pelo qual os ataques em Recife se tornaram tão numerosos, é importante destacar o quanto desconhecemos as múltiplas interações entre os seres vivos e o ambiente. E como nossa ação pode resultar em consequências nunca imaginadas anteriormente.

Cidadela revelada

Os insetos constituem um grupo de artrópodes muito numeroso e diverso, caracterizado entre outros detalhes, por apresentar três pares de patas. Estima-se que cerca de metade do seres vivos já identificados sejam insetos.

Além da diversidade de formas, os insetos também apresentam grande variedade de comportamentos, destacando-se  a capacidade de  algumas espécies viverem em sociedade.

São exemplos de insetos sociais: as abelhas, os cupins e as formigas.

Em uma sociedade os animais dividem tarefas, de modo que o trabalho individual é somado para garantir a sobrevivência do grupo.

As tarefas são feitas por diferentes grupos (castas) a quem competem atividades bem delimitadas. Assim, há soldados, operários, rainhas e machos reprodutores.

Soldados defendem os ninhos. Operários fazem todas as atividades de manutenção da colonia (vamos usar a definição de colonia encontrada em diversos dicionários: conjunto de indivíduos da mesma espécie vivendo em um determinado local), como, construção e limpeza do ninho, obtenção de alimento e cuidados com os ovos e larvas. Machos reprodutores  e rainhas têm a função de gerar novos descendentes.

Entre as abelhas, há três castas: operárias, zangões e rainhas.

Zangão - rainha - operária

Zangão – rainha – operária

ilustração em http://www.state.nj.us/dep/parksandforests/forest/bees.html

As castas de cupins são formadas por operários, soldados, rainhas e indivíduos  alados. Rainhas e indivíduos alados  saem dos  ninhos e fazem vôos nupciais. Retornando ao solo, esses indivíduos formam novas colonias. Durante anos, a rainha  faz a postura dos ovos que irão dar origem a todos os indivíduos da colonia. Para isso, o abdômen da rainha  cresce desproporcionalmente e ela já não consegue se movimentar e precisa ser cuidada pelos operários, que a limpam e alimentam.

Indivíduo jovem alado - rainha adulta - soldado - ninfa (forma jovem imatura) - sodado

Indivíduo jovem alado – rainha adulta – soldado – ninfa (forma jovem imatura) – sodado

Ilustração em http://www.ctahr.hawaii.edu/termite/forthepublic/abouttermites/index.html

Entre as formigas, encontramos machos alados, rainhas, operários e soldados.

rainha - macho - operário - soldado

rainha – macho – operário – soldado

Ilustração em http://academic.reed.edu/biology/courses/BIO342/2011_syllabus/2011_websites/NAEwebsite/Phylogeny.html

Em todos esses grupos de insetos sociais, há espécies que constroem complexas moradias para a colonia.

Colmeias de abelhas com seus favos hexagonais feitos de cera, são bastante conhecidos.

Os favos hexagonais armazenam o mel e abrigam as larvas em processo de crescimento.

Nos favos hexagonais as abelhas armazenam mel e mantêm abrigadas as larvas em processo de crescimento.

Imagem em http://beespotter.mste.illinois.edu/topics/honey/

Os cupins constroem cupinzeiros que, em alguns casos, são imensos e além da parte subterrânea, se estendem vários metros acima da superfície do solo.

Cupinzeiro - com uma complexa estrutura subterrânea e acima da superfície.

Cupinzeiro – com uma complexa estrutura subterrânea e acima da superfície.

ilustração em http://systems11thurs.wiki.usfca.edu/MoayedJ

Cupinzeiro no Quênia.

Cupinzeiro no Quênia.

Imagem em http://www.swri.org/

Cupinzeiro em Darwin, Austrália.

Cupinzeiro em Darwin, Austrália.

Imagem em www.opl.ucsb.edu

Mas e as formigas? Todos conhecemos formigueiros e não raramente descobrimos a localização de um deles da pior forma: pisando ou sentando em cima. Mas como são os formigueiros por dentro? Qual a complexidade destas estruturas? Constituídos por galerias escavadas na terra, é muito difícil observar o interior de um formigueiro. Serão tão complexos quanto as colmeias e os cupinzeiros?

Para responder a estas e outras perguntas pesquisadores têm usado uma  técnica (muito invasiva, é verdade) que permite visualizar um formigueiro por dentro.

No endereço: http://www.youtube.com/watch?v=ozkBd2p2piU há um filme de poucos minutos onde podemos conhecer o interior de um formigueiro e avaliar sua estrutura. O filme é em inglês, assim, para facilitar a compreensão vou transcrever livremente a narrativa.

O filme inicia com a colocação de dez toneladas de cimento injetadas para o interior do formigueiro. Depois de algum tempo tem inicio a escavação que dura várias semanas e revela a megalópolis construída pelas formigas. Com a ajuda de máquinas, os cientistas removem toneladas de terra. Há vias subterrâneas conectando todo o complexo, inclusive os jardins onde são criados os fungos. A estrutura permite uma ventilação adequada e possibilita o deslocamento dentro do formigueiro. O desenho desse colosso  poderia  ter sido concebido por um arquiteto, no entanto, todo o complexo  foi construído pelo trabalho coletivo de milhões de formigas, que em conjunto, formam aquilo que costuma ser chamado de superorganismo.  A estrutura tem 50 metros quadrados e oito metros de profundidade. Para construí-la, a colonia movimentou 40 toneladas de solo. O esforço para esses minúsculos animais construírem algo tão grande é equivalente, em termos humanos,  à construção da muralha da China.

Professor: aproveite para discutir a divisão de tarefas nas diversas sociedades de artrópodes e questione o porquê  dessa associação ser favorável aos animais. Sugira a ampliação da discussão do tema por meio de pesquisas sobre as abelhas e os cupins.  Aponte a importância ecológica destes animais, como por exemplo:

1- abelhas: polinização;

2- cupins: reciclagem de matéria orgânica, especialmente da celulose, composto muito abundante, mas de dificílima digestão;

3- formigas: algumas espécies mantêm interações que favorecem a germinação e a multiplicação de plantas que aparentemente são “atacadas” por elas. As formigas auxiliam a manter o ambiente limpo, ao consumir insetos e outros animais mortos. Algumas espécies comem ovos de outros insetos, auxiliando a manter essas populações sob controle. Formigas são alimento de diversas espécies de aves e de mamíferos como o tamanduá. Ao cavar o solo, ajudam a arejá-lo e movimentam suas camadas, deslocando partículas para a superfície.

“Progresso” a qualquer custo?

Em 22 de outubro, foi notícia mundial a situação  vivida pela população da cidade de Harbin, na China. Naquele dia, a poluição atmosférica na região chegou a um valor 40 vezes superior ao que a Organização Mundial de Saúde (OMS) admite.

Para a OMS, a presença de 25 partículas finas por metro cúbico no ar é o máximo tolerável. Na segunda feira 21 de outubro, segundo a agência ambiental chinesa, a cidade registrou 1000 partículas finas por metro cúbico.

Como resultado, a paisagem local mudou, a visibilidade chegou a menos de 50 metros.

Cidade de Harbin envolta na poluição.

Cidade de Harbin envolta na poluição. Foto Reuters.

A cidade tem cerca de 11 milhões de habitantes e são deles os relatos mais vívidos do problema:

Dói respirar, você não vê muitas pessoas nas ruas. Alguns colocam três máscaras no rosto antes de sair.”

Todos os alunos chegaram atrasados à aula porque não conseguimos achar o prédio da universidade.

Quando acordei abri a janela de casa e fiquei chocada: não se via nada.”

Poluição Harbin - China 1

foto AFP

E qual a causa do problema?

Segundo noticiários locais a situação ambiental se agravou por causa da entrada em funcionamento das usinas termoelétricas, fonte de energia para a os sistemas de calefação que fazem o aquecimento dos prédios durante os meses mais frios do ano.

Essas termoelétricas são movidas a carvão e geram grandes volumes de poluentes que são lançados na atmosfera. O carvão é considerado uma fonte “suja” de energia, porque sua queima emite o grande volume de dióxido de carbono (CO2), além de outros compostos, alguns deles responsáveis pela chuva ácida.

Mas não foram somente as termoelétricas que causaram o fenômeno. Associados aos poluentes gerados pelas usinas,  há também aqueles produzidos pelas fábricas e os poluentes emitidos pelos escapamentos de milhões de veículos. Juntos, esses fatores transformaram a cidade de Harbin em uma cidade fantasma, ou fantasmagórica.

Poluição Harbin - China 3  foto Xinhua

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                                                                                                     foto AFP/Getty Images

Um dos diretores do  departamento de proteção ambiental, resume o  que acontece na região: “no momento, as emissões poluentes totais superaram a capacidade ambiental“. O meio ambiente tem condições de dissipar componentes que poluem a atmosfera, mas  acima de certo limite, a dispersão dos poluentes fica comprometida. É o  que acontece em Harbin.

Para tentar diminuir o imenso problema, as autoridades estabeleceram algumas ações emergenciais: a interdição de obras, a paralisação de indústrias, a proibição da realização de fogueiras e churrascos ao ar livre,  a suspensão das aulas  e a restrição à circulação de veículos.

Mas o que são poluentes atmosféricos e quais suas consequências?

Segundo o CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente): considera-se poluente qualquer substância presente no ar que, pela sua concentração, possa torná-lo impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde, causando inconveniente ao bem-estar público, danos aos materiais, à fauna e à flora, ou seja prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade (Resolução n° 03/90).

Os poluentes atmosféricos podem ser  gases ou  partículas. Alguns são naturais, como os gases e cinzas vulcânicas, outros são artificiais porque gerados pela ação humana, como por exemplo  os resíduos gerados pela queima de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, querosene) ou de lenha e álcool entre outros.

A poluição atmosférica  pode ter repercussões sobre os seres vivos que habitam a região.

Os animais em geral  sofrem problemas respiratórios.

Os seres humanos, me particular, podem apresentar dor de garganta, tosse, falta de ar, alergias, asma,bronquite,  tontura, dor de cabeça.  As plantas podem ter sua capacidade de realizar fotossíntese comprometida.

Apesar da situação em Harbin, neste momento ser crítica, a adoção de ações e políticas que busquem preservar o meio ambiente pode amenizar o quadro atual. No passado, outras cidades já sofreram com a poluição e conseguiram reverter o problema. Para isso é necessária a conscientização e ação de todos em busca de um objetivo comum: a conservação do meio ambiente.

Pittsburgh, USA, século XIX. A ilustração retrata a grande poluição causada pelo uso do carvão nas indústrias que se multiplicavam.

Pittsburgh, USA, século XIX. A ilustração retrata a grande poluição causada pelo uso do carvão nas indústrias que se multiplicavam.

Professor: discuta com os alunos o “progresso a qualquer preço”. Destaque que situações como essa devem ser prevenidas, porque os processos para revertê-la são demorados, caros e não evitam os prejuízos e os males acumulados ao longo do tempo. Sobre a emissão de dióxido de carbono, no endereço http://edgar.jrc.ec.europa.eu/overview.php?v=CO2ts1990-2011&sort=des9 há uma tabela que lista os países e sua produção de CO2 nos anos de 1990 a 2011. A China é o maior produtor mundial desse gás, seguida pelos Estados Unidos, Índia e Rússia. Procure mostrar que todos nós temos parcela de contribuição a dar na preservação do meio ambiente. No caso da poluição atmosférica, podemos colaborar ao usar menos os carros e ao evitar a realização de queimadas, por exemplo.

Uma planta sensível

Nativa do Brasil, a Mimosa pudica é uma pequena planta rasteira frequentemente  encontrada entre gramíneas, em campos abertos e pastos. Suas folhas são subdivididas em folíolos.

Mimosa pudica, com folhas divididas em folíolos.

Mimosa pudica, com folhas divididas em folíolos.

Na base de cada folíolo há uma estrutura denominada pulvínulo, que é a responsável pela característica mais surpreendente da Mimosa pudica:  sua capacidade de reagir a estímulos mecânicos fechando rapidamente suas folhas.

Folíolos totalmente abertos

Folíolos totalmente abertos

Folíolos iniciando o fechamento.

Folíolos iniciando o fechamento.

Três folhas com folíolos totalmente fechados.

Três folhas com folíolos totalmente fechados.

Todas as folhas fechadas.  As quatro fotografias foram feitas no intervalo entre 16 h 22 m 48 s e 16 h 23 m 16 s.

Todas as folhas fechadas.
As quatro fotografias foram feitas no intervalo entre              16 h 22 m 48 s e 16 h 23 m 16 s.

No século XV, o naturalista inglês Robert Hooke (1635-1703), famoso por suas pesquisas utilizando o microscópio, observou a reação destas plantas e, não sabendo como explicá-lo sugeriu que elas tivessem músculos e nervos semelhantes aos encontrados nos animais.

No entanto, pesquisas posteriores realizadas no século XIX, revelaram que os movimentos da Mimosa pudica se devem à entrada e saída de água de determinadas células existentes no na base dos pecíolos das folhas e folíolos (região denominada pulvínulo).

Na base dos folíolos, os púlvinulos são formados por células que perdem água rapidamente

Na base dos folíolos, os pulvínulos são formados por células que perdem água rapidamente.

Com o estímulo mecânico, algumas células perdem água rapidamente, tornando-se flácidas e sem capacidade de manter a sustentação da folha ou do folíolo. Passados alguns minutos (15 a 20), essas células retornam à sua condição normal e as folhas voltam à  posição anterior ao estímulo.

Com o estímulo, as células da base do pecíolo perdem água que é absorvida pelas células da camada superior. Com isso, os folíolos fecham. O processo todo é muito rápido.

Com o estímulo, as células da base do pecíolo perdem água que é absorvida pelas células da camada superior. Com isso, os folíolos fecham. O processo todo é muito rápido.

No endereço: http://www.youtube.com/watch?v=TcyOk3VkSiY disponibilizei um pequeno vídeo que mostra uma planta reagindo a um estímulo mecânico.

Os pesquisadores acreditam que esse mecanismo seja uma maneira de defesa da planta que assim, derruba de suas folhas predadores pequenos e desencoraja herbívoros maiores quando estes, subitamente veem seu alimento  desaparecer.

Professor: estimule a curiosidade dos alunos perguntando se plantas se movem. Depois destaque que elas fazem muitos movimentos: crescem; abrem e fecham flores; se movimentam em direção à luz e não raramente fazem o que se convencionou chamar de rastreamento solar (exemplos: o feijão e o girassol); plantas carnívoras se fecham ao redor de suas presas. Enfim, as plantas se movem mais do que geralmente percebemos, pois alguns desses movimentos são muito lentos. No entanto, todos eles podem ser observados se houver curiosidade e atenção.

 

“Esculturas” no lago da morte

Um estranho fenômeno foi observado no lago Natron, na Tanzânia.

Imagem mapa em http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6292434.stm

O lago tem características únicas, suas águas muito quentes chegam a 60 graus e são extremamente alcalinas, com pH entre 9 e 10,5, que é mais alto do que o pH da amônia, por exemplo.

O nome do lago, Natron, está relacionado a um composto muito abundante em suas águas, o natrão, uma substância natural formada por carbonato de sódio decahidratado hidratado ( Na2CO3. 10 H2O), bicarbonato de sódio (NaHCO3) e pequenas quantidades de cloreto de sódio (NaCl) e sulfato de sódio (Na2SO4) . O natrão era usado pelos antigos egípcios  no processo de mumificação, pois ele provoca a desidratação dos corpos e cria um meio em que as  bactérias decompositoras não conseguem atuar.

Por todas essas características, pouquíssimos seres vivos conseguem sobreviver ali: há cianobactérias, algas, pequenos invertebrados,  tilápias (Alcolapia alcalica) e mais de 2,5 milhões de flamingos da espécie Phoenicopterus minor que ali encontram alimento abundante e ausência de predadores.

Imagem  foto em http://en.wikipedia.org/wiki/Lesser_Flamingo

O lago Natron é o principal local de nidificação dos flamingos desta espécie. O lago lhes oferece alimento, mas  também água doce e matéria prima para a construção dos ninhos. Cada ninho é um cone de argila sobre o qual é feita a postura dos ovos.

Imagem foto em http://www.fredhoogervorst.com/photo/00158/

A presença destes seres vivos em ambiente tão hostil é surpreendente. As pesquisas para identificar os mecanismos adaptativos que permitem sua sobrevivência, ainda não encontraram todas as respostas às perguntas que os pesquisadores fazem.

Recentemente, o fotógrafo Nick Brandt, transformou em fotos artísticas um fenômeno extraordinário observado naquelas águas. Ao longo da costa do lago, ele encontrou corpos  de pássaros e morcegos que haviam sido preservados e pareciam delicadas esculturas de pedra. O fotógrafo retirou os corpos da água e colocou-os em posições próximas aquelas que eles fariam quando vivos. O resultado foram fotos surpreendentes.

Imagem foto Nick Brandt em http://www.newscientist.com/article/mg21929360.100-deadly-lake-turns-animals-into-statues.html#.UkypONKsjK4

Não há uma explicação sobre o motivo da morte dos animais e nem sobre os complexos processos químicos que levam à esta forma de preservação  dos corpos.

Professor: o tema pode ser abordado para ilustrar os conteúdos relacionados a pH ou aos tipos de ambientes extremos e sobre o fato de que alguns organismos conseguem sobreviver em condições tão adversas.

Baratas, esses estranhos animais.

A maioria das pessoas, quando ouve falar em baratas,  tem reações que  vão do medo à repulsa.

Definitivamente,  baratas não são animais populares. E há muitos motivos para isso.

Tirando as reações emocionais que podem ter muitas explicações, ou nenhuma, as baratas causam tanto desagrado por inúmeros motivos:

– são veículo de doenças, pois  contaminam alimentos e utensílios de cozinha com bactérias como  Salmonella sp. e  Escherichia coli,  causadoras de doenças gastrointestinais  que podem produzir ser muito graves;

– nas grandes infestações, produzem odores desagradáveis e suas secreções mancham tecidos e  papéis;

– produzem alérgenos (substâncias capazes de causar alergia) que podem desencadear crises respiratórias principalmente em crianças e idosos.

Existem cerca de 5000 espécies de baratas já identificadas em todo mundo. Em comum,  o fato de terem o corpo oval e achatado, com longas antenas e a cabeça quase escondida.  Como todo inseto possuem seis patas que, em se tratando das baratas, possuem espinhos.

barata
Desenho esquemático de uma barata

Desenho esquemático de uma barata  – desenho em http://etc.usf.edu/clipart/47900/47969_cockroach_m.htm

 

A maioria das baratas possui asas, no entanto, elas voam pouco e quando o fazem percorrem somente curtas distâncias. Os animais jovens são parecidos com os adultos mas não possuem asas.

As baratas são insetos de metamorfose incompleta e seu ciclo de vida compreende somente as fases:  ovo -> ninfa  -> adulto.

ciclo vida barata 2
Ninfas de Blatta orientalis saindo da ooteca, imagem em http://animal-affairs.photoshelter.com/image/I0000iOHvBU_r6xI

Ninfas de Blatta orientalis saindo da ooteca, imagem em http://animal-affairs.photoshelter.com/image/I0000iOHvBU_r6xI

Os ovos são postos dentro de estruturas semelhantes a pequenas caixas (ootecas) de formato retangular, no interior das quais, dependendo da espécie, há de 16 a 50 ovos. Uma fêmea coloca uma ooteca a cada 5-9 dias, produzindo, ao longo de sua vida, cerca de 90 ootecas. Em um ano, uma fêmea e seus descendentes podem gerar mais de  10.000 indivíduos.

Em um período que varia de 34 a 88 dias, cada  ninfa que sai da ooteca  sofre até 12 mudas  e se transforma no animal adulto, em um processo de amadurecimento que dura entre 4 e 5 meses.

As baratas são animais de hábitos noturnos. De noite saem de seus esconderijos e vão em busca de alimento. Mas o que elas comem?

Praticamente tudo, algumas espécies silvestres se alimentam de restos em decomposição, enquanto as baratas que convivem com os seres humanos, como Blatella germanica, são onívoras e roem quase tudo.

A grande fecundidade e os hábitos alimentares pouco exigentes são a causa de um grave problema de saúde pública identificado em algumas aldeias indígenas do país. Durante o dia, as baratas se escondem nos telhados de palha das ocas e em em frestas escuras e úmidas. À noite, milhares de baratas saem de seus esconderijos e vão em busca de alimento e assim, com frequência,  roem a pele das pessoas provocando ferimentos dolorosos.

As crianças são mais sensíveis porque têm sono mais profundo. Imagem em http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

As crianças são mais sensíveis porque têm sono mais profundo. Imagem em http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

As baratas tornam o alimento impróprio para o consumo humano. Imagem em: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

As baratas tornam o alimento impróprio para o consumo humano. Imagem em: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo

No endereço http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2013/09/dormindo-com-o-inimigo, há mais informações sobre o problema gerado pelas baratas nas aldeias indígenas.

 Professor: Estimule os alunos a falar sobre as baratas. O tema é importante para destacar a importância dos cuidados com conservação e estocagem dos alimentos e a necessidade de manter a casa limpa. É interessante destacar que baratas são alimento de outros predadores, como por exemplo, os escorpiões, portanto, a presença de baratas pode atrair para as imediações das casas animais muito perigosos. A reportagem de Ciência Hoje destaca a tentativa dos pesquisadores em produzir um repelente natural, mas, como os resultados foram pouco satisfatórios, a solução encontrada pelos indígenas em uma das aldeias, foi colocar fogo nas ocas. Reforce a necessidade de controlar a presença desses animais e organize uma lista com atitudes que todos podemos tomar para evitar a proliferação das baratas.

“Aquele que faz dormir”

Os indígenas da amazônia, conhecedores das características de certo peixe encontrado nos rios da região, deram a ele o nome de poraquê, termo cujo significado aproximado é: “aquele que faz dormir” ou “aquele que entorpece”. Posteriormente, esses  peixes  receberam o nome científico de Electrophorus electricus.

Mas qual será a característica que levou os povos da amazônia a dar tal nome ao peixe?

O poraquê é  capaz de gerar potentes descargas elétricas que podem atordoar outros animais, inclusive os seres humanos e eventualmente causar-lhes a morte.

Essa característica também é a origem do nome científico do animal.

Os poraquês chegam a medir dois metros de comprimento e podem apresentar cerca 30 kg de massa. Seu corpo de  formato  cilíndrico-alongado  não é recoberto por escamas e por  isso, o animal também é conhecido em algumas regiões do mundo como enguia elétrica (electric  eel).

Poraquê

Poraquê (Electrophorus electricus)

Além da bacia amazônica, eles também ocorrem na bacia do Orinoco  e podem ser  encontrados no Brasil, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

Os poraquês preferem águas calmas e fundos lodosos onde encontram alimento: pequenos peixes e mamíferos que são  capturados com auxílio das descargas elétricas emitidas por seus corpos. Essa eletricidade também é usada para afugentar predadores.

O poraquê é o mais potente dos peixes elétricos, mas não o único, outras espécies também são capazes de emitir descargas elétricas como por exemplo:  os peixes-gato (catfish) elétricos (Malapterurus electricus) e os pequenos  peixes-elefante (Gnathonemus petersii), que medem no máximo 35 cm de comprimento. Assim como o poraquê, esses peixes são de água doce.

Peixe-gato elétrico Malapterurus electricus

Peixe-gato elétrico (Malapterurus electricus) que habita o continente africano e pode medir mais de um metro e vinte centímetros de comprimento.

Peixe elefante - Gnathonemus petersii

Peixe elefante – Gnathonemus petersii

Nos oceanos, os peixes elétricos mais conhecidos são os representantes do gênero Astroscopus (sp), que vivem sobre o leito arenoso do fundo, e as arraias (ou raias)  torpedo (Torpedo marmorata), que, em busca de alimento, costumam se mover junto ao fundo.

Raia (ou arraia)  torpedo - Torpedo marmorata

Raia (ou arraia) torpedo – Torpedo marmorata

Mas, de que modo esses animais são capazes de produzir a eletricidade que se propaga na água ao redor de seus corpos? E como eles mesmos não sentem essa descarga elétrica?

A eletricidade é produzida em órgãos especiais, os órgãos elétricos,  formados por um conjunto de células musculares modificadas, as eletroplacas, que se organizam em série, como as pilhas em uma lanterna. Quando estimuladas, sob comando do sistema nervoso central, cada uma das eletroplacas produz uma descarga elétrica.

Localização dos órgãos elétricos em alguns dos peixes citados no texto. A seta indica o sentido da corrente. (fonte http://www.ghoselab.cmrr.umn.edu/Classes/3102/Aidley-The%20Electric%20Organs%20of%20Fishes.pdf)

Localização dos órgãos elétricos em alguns dos peixes citados no texto. A seta indica o sentido da corrente. (desenhos em: http://www.ghoselab.cmrr.umn.edu/Classes/3102/Aidley-The%20Electric%20Organs%20of%20Fishes.pdf)

O poraquê chega a ter 6000 eletroplacas e quando todas as descargas individuais se somam,  produzem uma corrente elétrica que chega a 600 volts (V). Para efeitos de comparação lembre que a corrente elétrica que chega a nossas casas tem  tensão de 220 V ou 110 V. Então, o choque produzido pelo poraquê pode ser entre 3 e  6 vezes mais potente do que aquele sentido quando  acidentalmente recebemos uma descarga de 220 ou 110 V. Os outros peixes elétricos produzem descargas mais fracas.

Mas os peixes elétricos não são afetados pela descarga elétrica que produzem porque as eletroplacas estão isoladas das outras células ao redor delas e a  pele os protege da eletricidade que flui na água ao redor de seus corpos.

Os exemplos citados podem ser usados para ampliar os conhecimentos dos alunos sobre a grande diversidade de estratégias de predação e defesa encontradas entre os seres vivos. Para o ensino médio é interessante fazer a correlação entre a eletricidade gerada por esses peixes e o fato dos impulsos nervosos serem de natureza elétrica.

Chupim: aquele que vive às custas de outrem

Essa é uma das definições que o minidicionário Houaiss dá para a palavra chupim quando usada em expressões como: “tal pessoa é  oportunista, parece um chupim”.

Mas essa não é a única definição para a palavra. Chupim também é um dos nomes populares de uma ave de penas escuras, cujo nome científico é Molothrus bonariensis e que pode ser encontrada em quase toda América do Sul.

Molothrus bonariensis, conhecido entre vários outros nomes, como chupim, xeréu, vira-bosta

Molothrus bonariensis, conhecido entre vários outros nomes, como chupim, xeréu ou vira-bosta

Os chupins machos parecem negros, mas quando a luz incide sobre suas penas, é possível observar  uma coloração azul metálica. As fêmeas são mais amarronzadas.

Chupim fêmea.

Chupim fêmea.

Essas aves se alimentam de insetos, aranhas e grãos. Costumam ser vistas em bandos, buscando alimento nos gramados (especialmente após o corte da grama).  Seus ovos são brancos ou cinza claro e podem ter manchas acastanhadas.

Mas, qual a relação entre a ave da descrição e imagens acima e  o uso pejorativo que se faz de seu nome popular?

O chupim é considerado um animal oportunista porque não constrói ninhos e a fêmea não choca seus ovos. Esses animais mantêm com diversas outras espécies de aves uma interação denominada esclavagismo. Isto é, os chupins se aproveitam do trabalho das outras aves para o desenvolvimento de seus filhotes.

A fêmea coloca seus ovos em ninhos de outras aves para que ali eles sejam chocados. Parece que a fêmea coloca apenas um ovo em cada ninho, no entanto, pesquisadores já encontraram até cinco ovos de chupim em um mesmo ninho (cada um deles colocado por uma fêmea).

Uma das aves mais visadas pelos chupins, são os tico-ticos, no entanto, muitas outras espécies podem ser  “vítimas” da ave oportunista,  entre elas, as corruíras (Troglodytes sp).

As corruíras são muito menores do que os chupins, comem grande variedade de insetos e aranhas, além de conchas de caracol que servem provavelmente para fornecer cálcio e areia para ajudar a digestão. Em solo, se movem  por meio de saltos rápidos.

Corruíra - Trglodites sp. Foto em wikimedia commons - Dario Sanches

Corruíra – Troglodites sp.
Foto em wikimedia commons – Dario Sanches

Os ninhos são construídos com amontoados de galhos escondidos em cavidades as mais variadas: fendas nas árvores, antigos ninhos de pica-paus e outras, existentes em materiais produzidos pelos seres humanos, como caixas, latas e em objetos diversos descartados no ambiente. Os ninhos são forrados com grama, penas, pelos e uma grande variedade de materiais como cordas, fios, barbantes, plásticos…

A fêmea do chupim coloca um ovo nesse ninho e a fêmea da corruíra (ou outra espécie que tenha tido seu ninho invadido) choca esse ovo, junto com os seus próprios ovos.

Geralmente o filhote do chupim nasce antes dos demais e recebe toda atenção e cuidados da fêmea. Não raramente, ele empurra os outros filhotes para fora do ninho, eliminando a concorrência e, incrivelmente, depois de bem grandinho,  ainda exige muita atenção da “mãe adotiva”.

Pudemos flagrar um breve momento dessa relação. O vídeo está disponível em  http://youtu.be/6qadJP9Pwsk. Nele,  o chupim filhote, faz todo um gestual com as asas e o corpo  e produz bastante barulho (o áudio do vídeo não ficou bom). Então, surge a pequena fêmea que alimenta o grandão. Em seguida, a fêmea voa e o filhotão esfomeado segue atrás. São poucos segundos, mas revelam bastante dessa estranha interação. Durante vários dias ouvíamos o pio exigente do chupim e víamos a pequena corruíra tentando atendê-lo.

Aguarda a "mãe-adotiva" para alimentá-lo.

Filhote de chupim aguarda a “mãe-adotiva” (corruíra) para alimentá-lo.

Aqui o bichinho já está agitado exigindo comida.

Aqui o bichinho já está agitado exigindo comida.

Uma pergunta que podemos  fazer é: porque essas aves (tico-ticos, corruíras, sanhaços e outras) aceitam esses ovos “invasores” em seus ninhos?

Uma resposta foi tentada  pelos índios guaranis:  segundo a tradição indígena, os gaviões e falcões lutavam com outras aves, entre elas os urubus, para decidir quem teria a supremacia dos céus. Vencida a batalha, houve muito vandalismo e  depredações, quando a casa do chupim foi queimada. A ave, ainda que muito chamuscada,  escapou da morte, mas sua plumagem ficou negra. Os chupins, com medo de novos incêndios, nunca mais fizeram ninhos (dessa maneira, os índios explicavam a cor das aves e o fato de não construírem ninhos). (Frisch, J.D & Frisch, C. D.  Aves brasileiras e plantas que as atraem. São Paulo: Dalgas Ecoltec. 3a.ed.p. 346).

Para os pesquisadores a resposta é menos poética. Estudos recentes indicam que se o ovo do chupim é retirado do ninho, esses ninhos correm grande risco de ser destruídos pelos chupins, parece que a  depredação narrada na lenda guarani é, de fato, uma ação dos chupins. Assim, manter ovo no ninho, com todo desgaste que isso traz para a ave que irá cuidar dele, parece ser uma estratégia para evitar um mal maior.

Professor: sugerimos o vídeo para exemplificar a interação ecológica conhecida como esclavagismo. O vídeo pode ensejar discussões das mais diversas naturezas e talvez possa ser trabalhado com professores de outras áreas, levantando questões como ética, oportunismo. A explicação dada pelos indígenas também é um rico material para reforçar a importância da observação e das tradições populares. Os três endereços eletrônicos abaixo são fonte de informações sobre as aves em geral (os dois últimos são em inglês).

http://www.wikiaves.com.br/

http://avibase.bsc-eoc.org/avibase.jsp

http://www.birds.cornell.edu/Page.aspx?pid=1478

Cantar até estourar?

Não é raro ouvirmos  pessoas afirmarem que as cigarras estouram (ou explodem) de tanto cantar. A informação parece estranha, mas, mesmo assim, muitos acreditam nela. Então, podemos nos perguntar:  porque as pessoas fariam tal afirmativa ou acreditariam nela?

Frequentemente, observações do mundo natural geram curiosidade e em consequência, tentativas de explicação. Em muitas regiões do país podemos encontrar, aderidas às árvores, estruturas como a que vemos abaixo:

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Observe-a atentamente. Perceba que nas costas do que parece ser um inseto há uma fenda, o que dá a impressão de que o animal  rompeu (rasgou). Terá estourado?

Para entender melhor o que acontece sugerimos o filme que se encontra disponível em http://www.youtube.com/watch?v=tjLiWy2nT7U. Produzido pela BBC de Londres a narrativa é em inglês. Para facilitar a compreensão, fizemos um  pequeno roteiro explicativo com informações adicionais que podem enriquecer a explicação do fenômeno visualizado no filme.

                                                          O surpreendente ciclo de vida das cigarras

O narrador (Sir David Attenborough) inicia contando que certas espécies de cigarras que vivem no leste dos Estados Unidos permanecem 17 anos embaixo da terra, alimentando-se da seiva que extraem das raízes das árvores do local. Após esse período,  em poucos dias, toda uma população de cigarras (na forma de ninfas) sai da terra (aos 0:11 segundos do filme).  São bilhões de indivíduos (estima-se que hajam cerca de 370 ninfas por metro quadrado, em uma grande área que mede quase 100.000 quilômetros quadrados). As ninfas sobem pelos troncos das árvores (aos 0:40 segundos do filme) e se transformam nos animais adultos (aos 1:02 minutos do filme). Para isso, o esqueleto externo (exoesqueleto)  se rompe na região das costas e do interior dele sai o  adulto jovem, cujas asas se expandem rapidamente (o filme  está acelerado, mas em tempo real o processo também é rápido). Em pouco tempo os troncos das árvores e o chão estão cobertos de exoesqueletos vazios. O processo de troca do exoesqueleto recebe o nome de ecdise. Alguns dias depois, com o exoesqueleto já completamente endurecido, os machos produzem um canto intenso, quase ensurdecedor, que pode chegar a mais de 100 decibels. O som é característico para as diferentes espécies e é produzido por um par de  membranas vibratórias  existentes na base do abdômen (aos 2:28 minutos).  O canto dos machos tem por objetivo atrair as fêmeas, que  respondem com pequenos sons semelhantes a estalos (aos 2:46 minutos). Os machos vão em busca desse som. Aos 2:48 minutos, Sir David Attenborough mostra que o som produzido pelas fêmeas é semelhante a um estalo de dedos e para comprovar isso, estala os dedos perto de um macho que passa a se mover em busca da fonte do ruído, até chegar ao apresentador e finalmente a seus dedos. Quando macho e fêmea se encontram, ocorre o acasalamento (aos 4:15 minutos). Finalmente, o narrador explica que pouco se sabe sobre os mecanismos que levam as cigarras a sair simultaneamente do solo após terem se passado 17 anos de sua existência subterrânea.

Entre a imagem acima e a foto abaixo, há muita diferença no aspecto do inseto. Isso se deve ao fato de que as asas e o esqueleto ainda precisam endurecem para que o animal finalmente chegue ao estágio adulto.

Cigarra adulta -

Cigarra adulta de uma espécie encontrada no Brasil.

Depois do acasalamento, as fêmeas fazem de 50 a 60 fendas  na casca de galhos tenros e ali realizam a postura de seus ovos. Cada fêmea, em sua curta existência de animal adulto, coloca cerca de 600 ovos. Em algumas semanas, as pequenas ninfas eclodem e buscam refúgio sob  o solo (algumas se enterram quase 30 cm), onde ao longo de 17 anos  (se forem da espécie americana vista no filme), se alimentam de seiva das plantas e sofrem mudas, até atingir o último estágio de  ninfa e sair para a superfície, dando início a outra “invasão barulhenta”.

O ciclo de vida das cigarras pode ser resumido em: ovo –> ninfa –> adulto, por isso, dizemos que esses insetos sofrem metamorfose incompleta, isto é, são hemimetábolos.

Ciclo de vida das cigarras - ilustração de Treasure Bay & Judith Hunt.

Ciclo de vida das cigarras – ilustração de Treasure Bay & Judith Hunt.

Ainda que o mecanismo de eclosão simultânea seja pouco conhecido (parece ter bases genéticas, sendo desencadeado pela ação de um determinado gene), os pesquisadores acreditam que o aparecimento dessa imensa quantidade de animais ao mesmo tempo seja uma estratégia de sobrevivência, pois assim,  a maioria dos insetos sobrevive à predação. Os principais predadores das cigarras são aves e certas espécies de vespas.  Essas vespas têm grande porte (chegam a 5 cm) e são conhecidas como cicada killer wasps (vespas assassinas de cigarras). A vespa paralisa a cigarra com o veneno inoculado por seu ferrão, e carrega-a  para sua toca. Lá deposita um ovo sobre ela. Um ou dois dias depois, a larva eclode e começa a se alimentar da cigarra.

As cigarras que vivem em território brasileiro não cumprem um ciclo de vida tão longo, elas geralmente completam seu desenvolvimento entre 1 ou 2 anos e não saem simultaneamente de seus abrigos sob a terra. Algumas espécies causam prejuízos à lavoura, especialmente de café. As ninfas escavam as raízes com suas fortes patas anteriores (observe na fotografia que mostra o exoesqueleto vazio), causando danos às plantas.

O incrível ciclo de vida das cigarras tem sido uma fonte de fascínio desde tempos antigos, por exemplo, os chineses consideravam  que estes insetos eram  poderosos símbolos de renascimento.

Professor: aproveite para valorizar o conhecimento popular como algo que geralmente é a tentativa de explicar fenômenos observados na natureza. Apesar de  a explicação popular frequentemente não corresponder à explicação dada pelos pesquisadores, nem por isso, ela deixa de ter valor como patrimônio cultural. Questione se os alunos conhecem outras crenças relacionadas ás cigarras, por exemplo, frequentemente as pessoas vêem em seu canto um indício de chuva.

Poucos insetos fazem metamorfose incompleta e o exemplo das cigarras (com seu incrível ciclo de vida) pode tornar o tema mais atraente. Além disso, ele pode ser usado para reforçar a necessidade das mudas ou ecdises. Questione os alunos se eles já encontraram essas “casquinhas” de cigarras aderidas às árvores e o que imaginaram que fosse. Estimule-os a observar atentamente as fotografias e o filme, que pode (e deve) ser pausado diversas vezes para destacar os principais acontecimentos  da vida das cigarras ali apresentados.

Surpresas nos rios

Em junho, o portal G1 noticiou a admiração causada  por um peixe de água doce conhecido há muito tempo ( foi descrito na primeira metade do século XIX), mas pouco visto, o  abotoado ou cuiú-cuiú (fam. Doradidae), um tipo de bagre que tem o corpo coberto  por  dezenas de placas ósseas com espinhos. Por apresentarem esse revestimento incomum e sem escamas, peixes deste tipo são conhecidos como peixes-de-couro. O animal da fotografia foi capturado no rio Macacoari, em Macapá (AP).

peixe_de_couro

foto em http://g1.globo.com/ap/amapa/noticia/2013/06/peixe-de-couro-chama-atencao-de-turistas-em-macapa.html

Os cuiú-cuiús vivem em águas profundas das bacias dos rios Paraná, Araguaia e  Amazonas e  se escondem em “tocas” cavadas nas barrancas dos rios e entre a vegetação das matas inundadas. Com seus barbilhões rastreiam a areia e o lodo do leito dos rios em busca de alimento. Esses peixes são onívoros e podem se alimentar de moluscos, camarões de água doce, peixes menores, larvas, frutos, sementes e detritos. Os animais têm coloração escura que lembra cor de barro. Podem  medir até 70 cm e apresentar massa de 6 a 7 kg. Apesar de pouco conhecido dos turistas e visitantes ocasionais, o cuiú-cuiú é antigo conhecido dos indígenas e das populações ribeirinhas, que o usam como alimento. Em uma demonstração da profunda interligação entre os diversos organismos presentes nos diferentes ecossistemas, pesquisa publicada em 2007, revela que a pesca excessiva do cuiú-cuiú pode ter tido consequências até então não imaginadas.

Vamos conhecer essa história.

Em 2005,  centenas de moradores de Araguatins, cidade às margens do rio Araguaia, no estado de  Tocantins, apresentaram um estranho surto de irritação e coceira nos olhos, seguida de lesões na conjuntiva (uma das membranas que formam o olho) que, em alguns casos, produziu cegueira ou perda parcial da visão em pelo menos um dos olhos afetados pelo problema. A situação ficou tão séria que diversos pesquisadores foram contatados para encontrar uma explicação para o que estava acontecendo. Depois de várias hipóteses que não se confirmaram, duas pesquisadoras parecem ter encontrado a resposta e parte dela já era conhecida dos indígenas que habitavam a região há séculos. Pesquisas recentes, sobre a fauna do Araguaia  revelaram que  em suas águas vive uma grande variedade de esponjas  (classe Demospongiae), que os indígenas denominavam de “cauxi” ou “caixi”. As esponjas são animais sésseis, isto é, vivem fixos a um substrato, e são filtradores,  retirando da água o oxigênio e os nutrientes necessários a sua sobrevivência.  Para dar sustentação ao corpo, elas possuem estruturas microscópicas denominadas espículas. As esponjas de água doce possuem espículas minerais, compostas por dióxido de sílica. Quando os animais morrem, sofrem decomposição e as espículas se dispersam na água.

Espículas microscópicas (parecem pequenas agulhas)

Espículas microscópicas (parecem pequenas agulhas)

foto em http://www.gc.maricopa.edu/biology/lsola/Bio182/labreview/porifera/Spicules.jpg

Os indígenas, antigos habitantes da região,  reconheciam o perigo de  águas que tivessem cauxi e evitavam banhar-se nelas ou bebê-las. Relato de 1934, dá conta que eles ensinavam que as águas com cauxi “queimam”. Texto de 1955, reforçava que a população evitava tomar banho nesses lugares, bem como usar essas  águas. Eles temiam os espinhos pontiagudos do cauxi, que ficavam em suspensão na água e aderiam ao corpo causando coceiras desagradáveis.

Conhecedoras destas tradições, ao procurar esclarecer o surto que atingiu Araguatins, as pesquisadoras se voltaram para as águas do Araguaia. Coletaram amostras dessa água para examinar suas características e procurar espículas. Conversaram com os moradores para entender os hábitos locais. Descobriram que havia dez espécies de esponjas vivendo naquele trecho do rio e que nessas águas e no sedimento do fundo, havia  espículas. As entrevistas revelaram que as pessoas afetadas pela estranha doença ocular tinham o hábito de mergulhar e nadar junto ao leito do rio com os olhos abertos. Estudos posteriores analisaram os nódulos que se formavam no olho e em três casos, dentro deles,  foram encontradas espículas de duas espécies de esponjas: Drulia uruguayensis e Drulia ctenosclera.

Espículas de Drulia sp.

Espículas de Drulia sp.

 Drulia ctenosclera

Drulia ctenosclera

Drulia uruguayensis

Drulia uruguayensis

fotos de Drulia em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81752007000300013

As espículas aderem ao olho e provocam a formação de nódulos como os observados nas imagens.

Nódulo na conjuntiva

Nódulo na conjuntiva

olhos com lesões por espículas - 2 Fotos em: http://www.nature.com/eye/journal/v27/n3/fig_tab/eye2012290f1.html

Mas se essa foi a causa do surto, restava uma questão: porque o número de esponjas e, consequentemente, de suas espículas parecia ter aumentado? Diversas hipóteses foram levantadas para tentar explicar o desequilíbrio que deu origem a essa situação:

a) a constante remoção de areia  do rio por dragas, faria as espículas depositadas no fundo ficarem em suspensão na água;

b) a crescente população de um tipo de moluscos gastrópodes que reviram o fundo lodoso do rio em busca de alimento também contribuiria para manter as espículas em suspensão na água. Esses moluscos teriam proliferado excessivamente pela falta de seus predadores naturais: os peixes cuiú-cuiú que, pescados em grande número, são cada vez mais raros na região;

c) a correnteza do rio que se desloca junto à margem onde se situa a cidade e ajuda a revolver o fundo;

d) o aumento de material orgânico nas águas do rio causado pela falta de saneamento básico. A maior oferta de alimento teria favorecido a multiplicação de bactérias que são a principal fonte de  alimento dessas esponjas.

O mais provável é que todas essas situações, associadas ao hábito de muitos moradores da região mergulharem de olhos abertos, expliquem o surto registrado na cidade de Araguatins em 2005.

Professor: O texto anterior pode ser usado para reforçar a grande biodiversidade de nosso planeta e em especial de nossos rios. Pode também ser usado quando procuramos mostrar a profunda interligação que os diferentes organismos mantêm entre si e com o ambiente. Estimule os alunos a sugerir alternativas para que outros surtos como esse não afetem as populações ribeirinhas de nosso país. Reforce a importância da orientação para prevenção e do saneamento básico.

O estudo sobre o surto de doença ocular em Araguatins pode ser lido integralmente em  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81752007000100016  (acesso em 04  de julho de 2013).  E há um resumo em  inglês em http://www.nature.com/eye/journal/v27/n3/full/eye2012290a.html  (acesso em 04 de julho de 2013).